Da Redação



"O despertar de uma alma"

Vladimir Polízio

21-3-2020

Já faz tempo que um certo chefe de coletores de impostos da cidade palestina de Jericó(1) esforçou-se o quanto pode para ver e aproximar-se de Jesus, quando soube que este passaria por aquele lugar.

Por ter estatura pequena e receoso de perder aquela que seria a sua preciosa oportunidade, não poderia misturar-se à multidão que aguardava pelo Mestre. Certamente, em meio àquele aglomerado de pessoas, não iria nunca conseguir alcançar seu objetivo maior.

Por ser o responsável pelo recolhimento dos tributos do povo judeu em benefício do Império Romano, não tinha boa reputação a exemplo de todos aqueles que desempenhavam idêntica atividade.

Seu nome era Zaqueu(2). Zaqueu, o publicano(3).

Zaqueu, que morava em Jericó, tinha família e era um homem de muitas posses, naquele dia levantou-se preparado para cumprir a intuição recebida: avistar-se ou reunir-se com Jesus, a qualquer custo. E foi o que fez, resoluto, empenhando-se para chegar às alturas, de onde teria melhores condições de vê-lo.

Não vacilou em subir por um sicômoro(4), árvore de cujos galhos fez degraus, posicionando-se em privilegiado ângulo de observação.

O representante do poder romano não só encontrou-se com o Cristo, como recebeu-o em sua casa, já que ouviu do Senhor, sem que Ele o conhecesse, o chamamento imperativo que mudou para sempre a sua vida: “Vamos Zaqueu, desça daí!; hoje irei à tua casa!”.

E foi esse o seu momento de despertar-se em espírito.

Assim o antigo chefe dos cobradores viveu aquele que deve ter sido o maior dia de sua vida; a alvorada nova que imprimiu outras cores na tela de sua existência. Sim, porque Zaqueu, ainda neste vale de lágrimas, viu chegar o momento de mudança e não vacilou em assumir o compromisso de abraçar uma causa que não lhe era estranha.

Tantas vezes ele, que já tinha ouvido falar do Mestre, não se interessara até aquele momento.

Percebeu então que novas portas lhe seriam abertas, sem que o dinheiro fosse a chave, mas que, por incrível pudesse parecer, se sentia rejubilado com o descortinar desse feliz momento, que se assemelhava a um renascimento.

Hoje, com os séculos decorridos, já não é mais necessário subir em árvores ou abraçar-se em galhos para elevar-se à altura necessária e o nível ideal de visão da figura redentora de Jesus.

Contudo, o recurso que se mostra aos nossos olhos, nem sempre é observado com o valor e critério que merecem. Como sabemos, ainda há os que insistem e persistem nesse compasso de expectativa e não são poucos os que preferem manter prudente distância com qualquer tipo de ensinamento. Se é visto, não é enxergado, ou vice-versa, ou, ainda, se o for, não é compreendido.

E é nesse fecundo e promissor manancial que se descobrirá o ponto de convergência que conduzirá o homem ao encontro com Aquele que afirmou, de viva voz, ser O Caminho, A Verdade e A Vida.

Assim, a garantia eficiente da medicação para o corpo e a alma somente será efetiva e verdadeira quando, através da fé, do respeito e do amor, dessedentar a sede de equilíbrio nessa fonte harmoniosa e perene onde o jugo é suave e o fardo é leve, que se chama EVANGELHO.

(1) Jericó: Cidade com mais de oito mil anos às margens de um dos afluentes do Rio Jordão, na Palestina e considerada com das mais antigas com existência populacional contínua do mundo.

(2) Zaqueu: Lucas, 19, 1-10.

(3) Publicano: Ou rendeiro público; aquele que trazia, de renda, um imposto público. Nome que era dado ao cobrador ou coletor de impostos no Império Romano.

(4) Sicômoro: Denominação que engloba diversas espécies de árvores, tais como figueira, amoreira, etc., cujo tronco favorece a escalada e acomodação em seus galhos.




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