Vladimir Polízio



A mediunidade e o reconhecimento científico

01-09-2015

A Doutrina Espírita, cuja fecunda luz de seu conteúdo filosófico, científico e religioso nasceu aos olhos do mundo em 18 de Abril de 1857, está na iminência de ver reconhecido mais um de seus postulados pela comunidade científica. "Não há mais milagres. Assistimos à aurora de uma ciência desconhecida(1)."

Allan Kardec (1804-1869), foi o pseudônimo do estudioso francês Hippolyte Lèon Denizard Rivail, originário da cidade de Lion(2) que desde sua primeira juventude, sentia-se atraído para o estudo das ciências e da filosofia. Durante o período de 14 anos conheceu, estudou e reuniu incontáveis resultados conquistados não só em suas frequentes reuniões mediúnicas mas em outras que lhe chegavam de toda parte do globo, merecendo o codinome de o Codificador dessa doutrina maravilhosa, que espraiou-se rapidamente pela Terra. O Livro dos Espíritos, espinha dorsal e basilar, apresenta-se como marco inicial de sua divulgação, lançado na França.

"Do aparecimento de O Livro dos Espíritos data a verdadeira fundação do Espiritismo, que, até então, não possuía senão elementos esparsos sem coordenação, e cuja importância não pudera ser compreendida por todo o mundo; a partir desse momento, também, a doutrina fixa a atenção dos homens sérios e toma um desenvolvimento rápido. Em poucos anos, essas idéias acharam numerosos adeptos em todas as classes da sociedade e em todos os países(3)."

Sempre confiante nas informações passadas por mentores da espiritualidade, dentre os quais Zéfiro, a Verdade, Hahnemann, "Z" e outros, Kardec desenvolveu sua jornada produtiva, eficiente e eficaz, em temporada considerada justa para o que tinha a elaborar, de acordo com os Espíritos. De nossa parte, porém, levando em conta a responsabilidade com que o Codificador se envolveu nesse lapso de tempo e trazendo ao conhecimento geral, fatos com a dimensão que conhecemos, temos a considerar que foi algo admirável e respeitável herança que nos deixou.

Por ter posição contrária à aceitação pura e simples de um fato, uma teoria, sem qualquer oportunidade de questionamento, Allan Kardec posicionou-se sobre a imperiosa necessidade de submeter referida opinião ao crivo exclusivo no binômio razão e lógica. "O que a razão e o bom senso reprovam, rejeitai ousadamente; mais vale repelir dez verdades do que admitir uma só mentira, uma só falsa teoria(4)". Ainda com base neste conceito objetivo, o Codificador manifesta seu embasamento na teoria do próprio Santo Agostinho (Aurélio Agostinho -354-430), em sua obra Confissões, onde o emérito colaborador e um dos pilares da Doutrina Espírita manifesta-se, a respeito das relações entre a razão e a fé (crença), dizendo que a fé é sempre precedida por certo trabalho da razão: “É necessário compreender para crer e crer para compreender” (Intellige ut credas, crede ut intelligas), condição que também entendemos ser de extremada importância.

Ao entrarmos no assunto propriamente objeto deste trabalho, convém que nos lembremos de alguns desses postulados a que nos referimos no início.

No campo espiritual, por exemplo, o caso da existência do limbo para crianças não batizadas, criado pela Igreja Católica por volta do ano 416 e por ela defendido até 2006, teve a sua validade espiritual extinta após estudo por colegiado competente que chegou à conclusão de sua inexistência, culminando com a aprovação favorável do papa Bento XVI(5). Kardec fundamenta seus postulados confiante nas informações que lhe vêm do Alto, com esta máxima: "Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão, face a face, em todos as épocas da humanidade".

No campo da pesquisa preliminar citamos a eficiência dos passes, que ao longo dos anos, a contar de 2000, estudos dos mais variados têm se sucedido: A USP (Universidade de São Paulo), em conjunto com a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), comprova que a energia liberada pelas mãos tem o poder de curar qualquer tipo de mal estar.

A constatação no estudo de que a imposição de mãos libera energia capaz de produzir bem-estar foi possível porque a ciência atual ainda não possui uma precisão exata sobre esse efeitos. “A ciência chama estas energias de ‘energias sutis’, e também considera que o espaço onde elas estão inseridas esteja próximo às frequências eletromagnéticas de baixo nível”, explicou.

Ciência e espiritualidade - Médicos pesquisam influência do 'passe' espírita para tratar a ansiedade. Pesquisa da Unesp estuda união entre tratamento espiritual e médico.

Trabalho é realizado por médicos da Associação Espírita de Botucatu-SP.

Nas últimas décadas, muitos estudos científicos têm sido feitos a fim de demonstrar os benefícios de aliar o trabalho com a espiritualidade ao tratamento médico convencional. “Houve uma separação histórica, mas eu acredito que essas coisas precisam caminhar juntas. O ser humano deve ser visto como um todo. Nós não somos só um amontoado de células. Temos, comprovadamente, um lado emocional, espiritual”, pontua Ricardo(6).

A dona de casa Silvia Helena Vieira da Silva, de 47 anos, é uma das voluntárias que participam da pesquisa. Católica, ela acredita que as práticas espíritas podem colaborar para o bem-estar. “Nós estamos tão ansiosos, nos medicando tanto, que eu gostaria de experimentar algo que não fosse medicamento, até porque remédios atacam meu organismo. Se eu puder fugir, eu fujo”, declara Silvia, que sofre as consequências físicas da ansiedade(7).

Outro importantíssimo acontecimento, desta feita na área científica, foi dado a conhecer ao mundo pela Equipe do pesquisador brasileiro Dr. Miguel Ângelo Laporta Nicolélis, 55 anos, considerado um dos vinte maiores cientistas do mundo, pela revista "Scientific American", integrante do Centro Médico da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos, desvendando os segredos do cérebro.

Na busca de recursos mecânicos e neurológicos que possibilitem a melhora nas condições de mobilidade, foi o Dr. Nicolélis e sua equipe que apresentaram ao mundo uma descoberta revolucionária ao afirmarem que os neurônios emitem pulsos elétricos quando acionados através do pensamento. Formando o campo magnético propício, os sinais modulados pelo cérebro são conduzidos por micro-eletrodos instalados no crânio aos objetos alvos, a fim cumprirem os comandos recebidos.

É por esse processo que pacientes tetraplégicos conseguem mover braço mecânico para diversas atividades correspondentes ao ordenamento do pensamento.

Embora ressalvando os nobres objetivos da destinação dessa pesquisa, os resultados encaixam-se como uma luva nesta mensagem dada pelos Espíritos a Kardec: “A ação da prece é uma transmissão do pensamento” (...) “Quando, pois, o pensamento se dirige para algum ser, na Terra ou no espaço, uma corrente fluídica se estabelece de um a outro, transmitindo o pensamento, como o ar transmite o som(8)”.

No campo da astronomia, há que se falar no excepcional interesse científico na constatação da existência de outros mundos, como estamos vendo na sondagem física do espaço infinito motivado pelos indícios de provas coletados ao longo dos mergulhos hiperssônicos no Universo na busca incessante da verdade divina. Último anúncio feito em 14-8-2016, com a descoberta do planeta identificado como "Próxima 'B', há 4,2 anos luz (40 trilhões de quilômetros de distância), podendo ser uma nova Terra". "Há muitas moradas na casa de meu Pai" João, 14, 1-3 e igualmente, "Diversas categorias de mundos habitados"(9), cujos ensinamentos do Espíritos nos dão conta "de que os diversos mundos possuem condições muito diferentes uns dos outros, quanto ao grau de adiantamento ou de inferioridade dos seus habitantes". Quanto a este e outros tópicos passíveis ainda de pesquisas para que a Ciência os reconheça, sabemos ser tão somente uma questão de tempo.

Por fim, vamos tratar da psicografia, atividade mediúnica que foi atribuída a Francisco Cândido Xavier (1910-2002) como missão na Terra, e entenda-se aqui as incontáveis cartas e bilhetes avulsos a familiares além das mais de quatrocentas obras literárias de assuntos e autores variados, teve seu respeito e importância na esfera cível e criminal em nosso país, ao ser apresentada em juízo, em circunstâncias especiais e alcançando real valor e destaque nas sentenças, em face de esclarecimentos íntimos nunca antes conhecidos(10).

A citação do médium Chico Xavier justifica-se pela condição plena de expoente na atividade a que foi conduzido pelo Criador, não obstante haver sido advertido por Emmanuel, mentor que o acompanhou praticamente por 75 anos dos 92 vividos, lembrando que sua missão estava compromissada com a psicografia.

Mas a mediunidade tem trazido desconforto, insegurança e medo para aqueles que não a aceitam, não a compreendem ou não sabem como desenvolvê-la, seja pelo desconhecimento do assunto, pela posição contrária da família ou mesmo pela restrição religiosa.

Essas pessoas, ao buscarem nos ambulatórios médicos a solução a esse "problema", encontram raros profissionais que observam a distinção entre uma situação e outra. Quando esses "pacientes" anunciam algumas dessas mesmas sensações vividas na área da esquizofrenia, como "ouvir vozes" e "ver vultos ou mesmo pessoas" que outros não ouvem nem veem, são considerados, via de regra, pela prática que constatamos, como portadores da psicopatologia do quadro em questão, uma vez que estas alucinações, em princípio, são as mais comuns.

Em razão desse equívoco, a medicação convencional ministrada a esse "paciente", sem qualquer dúvida, é a mesma para os casos de esquizofrenia. Dessa maneira, o desequilíbrio desse "paciente", cujo "problema" não se localiza na matéria, terá graves consequências no curso do tratamento, pois o seu reequilíbrio está no campo do espírito, cuja terapia, quem sabe em futuro próximo, mas não agora, poderá ser encontrada no próprio consultório.

Carlos Mirabelli (1889-1951) da cidade de Botucatu-SP, então com 24 anos, é um dos mais belos casos que podemos citar já que, devido aos fenômenos mediúnicos que aconteciam por seu intermédio, com tamanha intensidade, chegou a ser despedido do emprego. A força que o envolvia era tanta que o médium chegava a ficar inutilizado em certos momentos. As caixas de sapato nas prateleiras voavam em sua direção, quando passava pelo corredor.

Foi considerado louco e internado no Hospício do Juquery, em São Paulo, sob a responsabilidade dos Srs. Dr. Franco da Rocha, que emprestou seu nome ao próprio Município, e Dr. Felippe Aché.

No hospital foi submetido a todo tipo de experimentações, ficando comprovada a veracidade dos fenômenos mediúnicos que chegaram às raias do belo, do maravilhoso, triunfando sobre os testes da comissão médica, que foi obrigada a confessar que ‘se o Sr. Mirabelli era louco, não deixava a sua loucura de ser genial...’.

Suas aptidões envolviam a materialização de espíritos, objetos, a levitação, o transporte, a clariaudiência, a vidência e outros fenômenos(11).

É do Brasil o destaque dessa pesquisa de vulto. O NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde), Grupo que está atuando com base científica, é de responsabilidade do pesquisador Dr. Alexander Moreira-Almeida(12), que atua em conjunto com Etzel Cardeña(13), professor de psicologia na Thorsen Universidade de Lund , Suécia, onde ele é diretor do centro de pesquisa em consciência e psicologia anômala (CERCAP).

A OMS (Organização Mundial da Saúde), reconhecendo a realidade apresentada por essa Equipe de pesquisadores decidiu por em prática algumas medidas para conhecer esses índices registrados no tocante ao assunto. Foram pesquisadas 250 mil pessoas em diferentes partes do mundo, com resultados também desiguais. Há evidências consistentes, portanto, que experiências psicóticas e anômalas são frequentes na população em geral e que na sua maioria não estão relacionadas a transtornos dessa natureza.

A decisão da OMS em classificar os sintomas da mediunidade com um CID (Classificação ou Código Internacional de Doenças) específico, entraria em vigor neste ano de 2015, mas, por questões de ordem técnica, essa data foi prorrogada para 2018, o que nos deixa, ainda, no campo da perspectiva.

"Dentre os sete países latino-americanos incluídos no levantamento, a prevalência variou entre 5,5% no Uruguai e 32% no Brasil (9% no Paraguai, México e Equador, 15% na Guatemala e 21% na República Dominicana). Embora associadas com o diagnóstico de esquizofrenia em apenas 10% dos casos, o número de experiências psicóticas correlacionou-se moderadamente com pior estado de saúde".

A finalidade é reduzir, em muito, o número de supostos alienados, dando-lhes as condições de desenvolver e fortalecer essa ferramenta especial, pois a mediunidade nunca foi, não é e nunca será doença; é, isso sim, um sagrado dom que dela não se pode abdicar, sob pena de responder por isso.

Concluímos com Kardec afiançando: “O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo, se encontra na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação”. E também com o físico alemão Albert Einstein: "A ciência sem religião é aleijada; a religião sem ciência é cega".


(1) Obras póstumas - biografia de Allan Kardec, de Allan Kardec - Ed. FEB.

(2) Foi fundada em 43 a.C. pelos romanos, com a designação de Lugduno, era a capital da província da Gália. Foi nessa cidade que nasceu o imperador romano Cláudio, o primeiro imperador que nasceu fora da península Itálica e que chegou a conquistar a Britânia em 43 d.C. Aqui se realizaram dois concílios ecumênicos da Igreja Católica: Lyon I (1245) e Lyon II (1274).

(3) Obras póstumas - biografia de Allan Kardec, de Allan Kardec - Ed. FEB.

(4) O Livro dos Médiuns, Segunda parte, Cap. XX, nº 230.

(5) Jornal Folha de S.Paulo de 21-4-2007.

(6) Médico infectologista Ricardo de Souza Cavalcante, da Faculdade de Medicina de Botucatu/Unesp (FMB).

(7)http://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/2015/03/medicos-pesquisam-influencia-do-passe-espirita-para-tratar-ansiedade.html

(8) O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. São Paulo-SP – LAKE – Livraria Allan Kardec Editora, 1986 – Cap. XXVII nº 10.

(9) O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. III.

(10) A psicografia no Tribunal, de Vladimir Polízio - Ed. Butterfly.

(11) Mirabelli, Um médium extraordiário, de Lamartine Palhano Júnior (1946-2000) - Ed. CELD-1994 - Rio de Janeiro-RJ.

(12) Alexandre Moreira-Almeida, nascido em 1974, é um psiquiatra e parapsicólogo brasileiro da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

(13) Etzel Cardeña, professor de psicologia na Thorsen Universidade de Lund, Suécia, onde ele é diretor do centro de pesquisa em consciência e psicologia anômala (CERCAP).

-o-



Vladimir Polízio
polizio@terra.com.br

Voltar para a página anterior / Voltar para a página principal