Antônio Sávio de Resende - Tonhão



Mãos enferrujadas

14-10-2018

Quando Joaquim Sucupira abandonou o corpo, depois dos sessenta anos, deixou-nos conhecidos, a impressão de que subiria incontinenti aos Céus.

Vivera arredado do mundo, no conforto precioso que herdara dos pais. Falava pouco, andava menos, agia nunca. Era visto invariavelmente em trajes impecáveis. A gravata ostentava sempre uma pérola de alto preço, pequena orquídea assinalava a lapela, e o lenço, admiravelmente dobrado, caía irrepreensível, do bolso mirim. O rosto denunciava-lhe o apurado culto às maneiras distintas. Buscava, no barbeiro cuidadoso cada manhã, renovada expressão juvenil. Os cabelos bem postos, embora escassos, cobriam-lhe o crânio com o esmero possível.

Dizia-se cristão e, realmente, se vivia isolado, não fazia mal sequer a uma formiga.

Assegurava, porém, o pavor que o possuía, ante os religiosos de todos os matizes.

Detestava os padres católicos, criticava as organizações protestantes e categorizava os espíritas no rol dos loucos.

Aceitava Jesus a seu modo, não segundo o próprio Jesus.

As facilidades econômicas transitórias adiavam-lhe as lições benfeitoras do concurso fraterno, no campo da vida.

E cada vez mais se convencia de que as melhores diretrizes eram as dele mesmo.

Afastamento individual para evitar complicações e desgostos. Admitia, sem rebuços, que assim efetuaria preparação adequada para a existência depois do sepulcro.

Em vista disso, a desencarnação de homem tão cauteloso em preservar-se, passaria por viagem sem escalas com o destino à Corte Celeste.

Dava aos familiares dinheiro suficiente para aventuras e fantasias, a fim de não ser incomodado por eles; distribuía esmolas vultuosas, para que os problemas de caridade não lhe visitassem o lar; afastava-se do mundo para não pecar.

Não seria Joaquim Sucupira perguntavam amigos íntimos, o tipo religioso perfeito?

Distante de todas as complicações da experiência humana, pela força da fortuna sólida que herdara dos parentes, seria impossível que não conquistasse o paraíso.

Contudo, a responsabilidade que o defrontava agora não correspondia à expectativa geral.

Joaquim Sucupira, desencarnado, ingressava numa esfera de ação, dentro da qual parecia não ser percebido pelos grandes servidores celestiais.

Via-os em movimentação brilhante, nos campos e nas cidades.

Segredavam ordens divinas aos ouvidos de todas as pessoas em serviço digno.

Chegara a ver um anjo singularmente abraçado à uma velha cozinheira analfabeta.

Em se aproximando, todavia, dos Mensageiros do Céu, não era por eles atendido.

Conseguia andar, ver, ouvir, pensar.

No entanto, desventurado Joaquim!!!

As mãos e os braços mantinham-se inertes, semelhavam-se a antenas de mármore, irremediavelmente ligadas ao corpo espiritual.

Se intentava matar a sede ou a fome, obrigava-se a cair de bruços porque não dispunha de mãos amigas que o ajudassem.

Muito tempo suportara semelhante infortúnio, multiplicando apelos e lágrimas, quando foi conduzido por entidade caridosa a pequeno tribunal de socorro, que funcionava de tempos em tempos, nas regiões inferiores onde vivia compungido.

O benfeitor que desempenhava ali funções de juiz, reunida a assembléia de Espíritos penitentes, declarou não contar com muito tempo, em face das obrigações que o prendiam nos círculos mais altos e que viera até ali somente para liquidar casos mais dolorosos e urgentes.

Devotados companheiros do bem selecionaram a meia dúzia de sofredores que poderiam ser ouvidos, dentre os quais, por último, figurou Joaquim Sucupira, a exibir os braços petrificados.

Chorou, rogou, lamuriou-se.

Quando pareceu disposto a fazer o relatório geral e circunstanciado da existência finda, o julgador obtemperou:

– Não, meu amigo, não trate de sua biografia.

O tempo é curto. Vamos ao que interessa.

Examinou-o detidamente e observou, passados alguns instantes:

– Joaquim, você era casado?

– Sim.

– Zelava a residência?

– Minha mulher cuidava de tudo.

– Foi pai?

– Sim.

– Cuidava dos filhos em pequeninos?

– Tínhamos suficiente número de criadas e amas.

– E quando jovens?

– Eram naturalmente entregues aos professores.

– Exerceu alguma profissão útil?

– Não tinha necessidade de trabalhar para ganhar o pão.

– Nunca sofreu dor de cabeça pelos amigos?

– Sempre fugi, receoso das amizades. Não queria prejudicar, nem ser prejudicado.

O julgador interrompeu-se, refletiu longamente e prosseguiu:

– Você adotou alguma religião?

– Sim, eu era cristão – esclareceu Joaquim Sucupira.

– Ajudava os católicos?

– Não. Detestava os sacerdotes.

– Cooperava com as Igrejas reformadas?

– De modo algum. São excessivamente intolerantes.

– Acompanhava os espíritas?

– Não. Temia-lhes presença.

– Amparou os doentes em nome do Cristo?

– A terra tem numerosos enfermeiros.

– Auxiliou criancinhas abandonadas?

– Há creches por toda parte.

– Escreveu alguma página consoladora?

– Para quê? O mundo está cheio de livros e escritores.

– Utilizava o martelo ou o pincel?

– Absolutamente.

– Socorreu animais desprotegidos?

– Não.

– Agradava-lhe cultivar a terra?

– Nunca.

– Plantou árvores benfeitoras?

– Também não.

– Dedicou-se ao serviço de condução das águas, protegendo paisagens empobrecidas?

Joaquim Sucupira fez um gesto de desdém e informou:

– Jamais pensei nisto.

O instrutor indagou-lhe sobre todas as atividades dignas conhecidas no Planeta.

Ao fim do interrogatório, opinou sem delongas:

– Seu caso explica-se: – Você tem as mãos enferrujadas.

Ante a careta de Joaquim Sucupira amargurado, esclareceu:

– É o talento não usado, meu amigo.

Seu remédio é regressar à lição.

Repita o curso terrestre.

Joaquim Sucupira, confundido, desejava mais amplas elucidações.

O juiz, porém, sem tempo de ouvi-lo, entregou-o aos cuidados de outro companheiro.

Rogério, carioca desencarnado, tipo 1945, recebeu-o de semblante amável e feliz, após escutar-lhe as compridas lamentações, convidou, pacientemente:

– Vamos Joaquim Sucupira. Você entrará na fila em breves dias.

– Fila? – interrogou Joaquim Sucupira, boquiaberto.

– Sim – acrescentou o alegre ajudante –, na fila da reencarnação.

E puxando Joaquim Sucupira pelos ombros, concluiu sorrindo – o que você precisa Joaquim, é de movimento...

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Da Obra Luz acima de Irmãos X (Humberto de Campos), por Chico Xavier.


Antônio Sávio de Resende - Tonhão - email’s: asavio921@uol.com.br; asavio@uaivip.com.br; asavio.fcvv@gmail.com; asavio13@uol.com.br


• “Aprenda a admoestar-se, antes que a vida admoeste você. Corrijamos a nós mesmos, antes que o mundo nos corrija. O tempo é aquele orientador incansável que ensina a cada um de nós, hoje, amanhã e sempre que ninguém pode realmente brincar de viver” de André Luiz, por Chico Xavier.




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