Vladimir Polízio



Nos limites do Céu

12-12-2019

Entre os religiosos existe um conceito generalizado de que sendo bom, frequentando regularmente o templo de sua crença e contribuindo com o "sagrado dízimo", a reserva do esplendor do Céu já estará garantida.

Mas o Evangelho de Jesus não nos oferece certeza alguma nesse sentido, pois a abrangência do termo limpo de espírito vai muito além do que imaginamos.

O médium Chico Xavier, através de Humberto de Campos, recebeu esta mensagem psicografada que dá uma visão interessante dessa expectativa que se têm. 'Nos limites do Céu':

"No extremo limite da Terra com o Céu, aportou um peregrino envolto em nevado manto.

Irradiava pureza e brandura. A fronte denunciava-lhe a nobreza pelos raios diamantinos que emitia em todas as direções. Extenso halo de luz assinalava-lhe a presença.

Recebido pela entidade angélica, que presidia à importante passagem, apresentou sua aspiração máxima: ingressar definitivamente no paraíso, gozar-lhe o descanso beatífico.

O divino funcionário, embora admirado e reverente perante espírito tão puro, esboçou o gesto de quem notava alguma falha menos visível ao olhar inexperiente e considerou:

– Meu irmão, rendo homenagem à alvura de tuas vestes, entretanto, vejamos se já adquiriste a virtude perfeita.

Sorridente, feliz, o viajor vitorioso colocou-se à escuta.

– "Conseguiste entesourar o amor sublime?" – perguntou o anjo, respeitoso.

– "Graças a Deus!" – informou o interpelado.

– "Edificaste a humildade?"

– "Sim."

– "Guardaste a esperança fiel?"

– "Todos os dias."

– "Seguiste o bem?"

– "Invariavelmente."

– "Cultivaste e pureza?"

– "Com zelo extremado."

– "Exemplificaste o trabalho construtivo?"

– "Diariamente."

– "Sustentaste e fé?"

– "Confiei no Divino Poder, acima de tudo."

– "Ensinaste a verdade e testemunhaste-a?"

– "Com todas as minhas forças."

– "Conservaste a paciência?"

– "Sem perdê-la jamais."

– "Combateste os vícios em ti mesmo, tais como a vaidade e o orgulho, o egoísmo e o ciúme, a teimosia e a discórdia?"

– "Esmeradamente."

– "Guerreaste os males que assolam a vida, como sejam o ódio e a perversidade, a insensatez e a ignorância, a brutalidade e a estupidez?"

– "Sempre."

O anjo interrompeu-se, refletiu longos minutos, como se estivesse em face de grave enigma, e indagou:

– "Meu amigo, já trabalhaste no inferno?"

– "Ah! isto não!" – respondeu o peregrino, escandalizado – "Como haveria de ser?"

O fiscal da celeste alfândega sorriu, a seu turno, e observou:

– "Falta-te semelhante realização para subir mais alto."

– "Oh! que contra-senso!" – aventurou o interessado – "Como servir entre gênios satânicos, de olhos conturbados pela permanente malícia, de ouvidos atormentados pela gritaria, de mãos atadas pelos impedimentos do mal soberano, de pés cambaleantes sabre o terreno inseguro, com todas as potências da alma perturbadas pelas tentações?"

– "Sim, meu amigo" – acentuou o preposto divino – "o bem é para salvar o mal, o amor foi criado para que amemos, a sabedoria se destina em primeiro lugar, ao ignorante. A maior missão da virtude é eliminar o vício e amparar o viciado."

"E, perante o assombro do ouvinte, rematou:"

– "Torne à Terra, desce ao inferno que o homem criou e serve ao Senhor Supremo, voltando depois... Então, cogitaremos da travessia. Lembra-te de que o Sol, situado cerca de cento e cinquenta milhões de quilômetros além do teu mundo, larga raios luminosos e salvadores ao mais profundo abismo planetário..."

Em seguida, o controlador da Porta Celestial cerrou a passagem ligeiramente entreaberta e o peregrino, de capa lirial, espantadiço e desapontado, sentou-se um pouco, a fim de meditar sobre as conquistas que havia feito.

Esta é apenas uma mensagem simbólica retratando uma realidade que ocorre a cada segundo com os irmãos dispersos neste campo de provações que se chama Terra, no instante da travessia a que todos seremos chamados, um dia.

Convém observar com atenção o nosso comportamento, de maneira a evitar surpresas desagradáveis aos nossos sentimentos, quando entregarmos o passaporte na travessia compulsória da Aduana da Vida.


Obra Luz acima, de Irmão (Humberto de Campos), por Chico Xavier.

Vladimir Polízio
polizio@terra.com.br

Voltar para a página anterior / Voltar para a página principal