Renovação



Último artigo escrito por Léon Denis,

publicado na Revue Spirite de março de 1927.


O que mais falta aos nossos contemporâneos não é, certamente, a inteligência; é, mais frequentemente, esta força espiritual, este motor oculto, que dá ao pensamento, sua irradiação e sua luz, esta cordialidade, espécie de magnetismo que aproxima as almas e as faz cooperar, mais eficazmente que todas as forças materiais, com o progresso social, com a evolução dos seres e do mundo.

Quando era embaixador em Nápoles, Chateaubriand, numa carta que ficou célebre, já escrevia a Mme. Récamier que os franceses, muito bem dotados em geral, com respeito ao espírito e à imaginação, o eram muito pouco no tocante ao julgamento e à vontade. Os estrangeiros nos acusam de nos sustentarmos na contradição, na oposição, e sermos hábeis na arte da crítica. Ora, a crítica não é suficiente para melhorar a mentalidade de um povo. O que nos falta é uma síntese, isto é, um resumo educativo, um procedimento que revele a todos, grandes e pequenos, o que as religiões e as filosofias não conseguiram lhes demonstrar, isto é, o objetivo real da vida e a grande lei de evolução.

E este resumo, esta síntese, é o que o Espiritismo nos traz com o ensinamento dos espíritos dado em inúmeras mensagens que, multiplicando-se e renovando-se todos os dias e em vários países, comunicam-lhe uma autoridade e um poder que vão crescendo sem cessar. E eis que nós aí encontramos as duas grandes correntes da ideia céltica, que se desenrolavam através dos séculos, frequentemente ignoradas, invisíveis, mas que nem por isso deixavam de prosseguir, no mistério, sua marcha silenciosa para se reunirem em uma ciência, em uma crença que é a própria expressão do gênio de nossa raça.

A primeira dessas correntes era a ideia política, o princípio de liberdade e o direito eleitoral proclamados pelas revoluções, corrente que nos reconduziu à forma democrática e social das instituições gaulesas.

A segunda corrente, filosófica e religiosa, desenha-se lentamente, seguramente. Por ela, a alma francesa se afirma em sua potência moral, em sua comunhão íntima com a natureza terrestre e a vida universal. Ela retoma com o mundo invisível o contato que perdera, a fim de assimilar suas forças e suas leis.

Os druidas, diz-nos Allan Kardec em suas mensagens, recebiam, pelas radiações do espaço, o pensamento revelador que os iniciava nos segredos do Além. Eles se impunham, por tarefa, fixar, condensar em fórmulas lapidares e em caracteres “ogham”(1) os princípios dessa revelação superior com vistas ao futuro. Seriam, pois, necessários séculos, para que o ser humano, por seu trabalho pessoal e sua progressão, pudesse assimilar todo o alcance desse ensinamento, a fim de que, em nossa época, a doutrina céltica e a doutrina espiritualista e científica fossem unidas por um elo imperecível.

Vê-se por aí que o plano da evolução humana ultrapassa em grandeza e confunde todas as nossas pequenas medidas terrestres.

Assim, realizam-se as previsões dos autores gregos e latinos que consideravam os gauleses como sendo depositários dos segredos da vida e da morte. Já nessa época longínqua, eles pareciam crer que nossa raça estava destinada a representar, no futuro, um papel revelador. E é o que ocorre, pois são celtas e druidas, reencarnados ou desencarnados, que vêm oferecer, a uma sociedade céptica e desencantada, o pão da vida, a bebida da imortalidade.

O Espírito Allan Kardec, cujos ensinamentos proponho-me a publicar, não é o único na obra; perto dele estão as almas dos grandes estudiosos, dos celtas do espaço. Juntos, eles trabalham para reanimar em nossas consciências a fé que se apaga e a confiança que desfalece.

O Sr. Le Braz, professor na Faculdade de Letras de Rennes, um estudioso dos celtas, e muito conhecido, escrevia:

“Os celtas são, talvez, de todas as raças, a mais tocada pelas preocupações com o Além.”

Por seu lado, o padre Fournier, superior do Colégio de Saint-Dizier, em seu Manual da História das Religiões Não-Cristãs, conclui:

“Um traço se desenha com tamanha intensidade nos descendentes mais autênticos dos antigos celtas, que é impossível não atribuí-lo igualmente a estes: é a profunda religiosidade, o senso agudo do mistério angustiante da natureza e do destino, a comoção repercutida ao mais profundo das almas, diante do enigma do Além.”

Esses testemunhos, emanados de um professor universitário e de um teólogo, não poderiam ser suspeitos de parcialidade.

Vimos como estas tradições, entre as vicissitudes da História, curvaram-se pouco a pouco para chegar a um período de incerteza e de cepticismo. Seria uma grande causa de fraqueza e, por consequência, uma infelicidade para a França, encontrar-se desprovida de concepções precisas sobre a vida e a morte. Sabe-se como, graças à ocupação romana, doutrinas estrangeiras vieram cobrir e apagar o foco de luz aceso pelos druidas. Estas doutrinas traziam, é certo, elementos de verdade e de beleza moral de que nossos pais se beneficiaram nas horas difíceis. Mas a doutrina do Cristo, ela própria, alterou-se com o passar do tempo e, no final das contas, a França achou-se diante de um ensinamento teológico que restringira todas as coisas, reduzindo as proporções da vida a uma só existência muito desigual, seguindo os indivíduos para fixá-los em seguida numa imobilidade eterna. As perspectivas do inferno tornaram a morte mais temível. Elas fizeram de Deus um juiz cruel que, tendo criado o homem imperfeito, punia-o por sua imperfeição, mesmo sem reparação possível. E daí os progressos do ateísmo, do materialismo que fizeram da França uma nação na maior parte céptica, desprovida dessa fé robusta e esclarecida que torna fácil o dever, suportável a prova e consigna à vida um objetivo prático de educação e aperfeiçoamento.

A revelação druídica, ao contrário, ensina que o princípio de vida no homem, as forças, as energias que se agitam nele, não podem estar condenadas à inércia, que a personalidade humana é chamada a desenvolver-se através do tempo e dos espaços e a adquirir as qualidades, as potências novas que lhe permitirão representar um papel sempre mais importante no Universo.

“Viver – diz Jean Reynaud em O Espírito da Gália – não é apenas estar fora do nada, é agir, é instruir-se, é usar suas faculdades e suas virtudes, é sentir-se livre; é conservar, desenvolver, multiplicar suas afeições; é elevar-se com a ajuda de Deus, na escala dos seres, mas nada perder, nem de si mesmo, nem de suas amizades.”

Ora, esta tradição, que dormitava no fundo das consciências célticas, desperta, sai da sombra dos séculos e se manifesta no mundo sob o nome de Espiritismo. A voz dos céus profundos faz-se ouvir novamente na Terra para chamar os homens ao sentimento do dever e à compreensão do elevado objetivo da vida.

E assim, uma tarefa nova se desenha para a França; desde a guerra, seu papel já parecia crescer no mundo, do ponto de vista material, e nada de sólido e de durável se edifica sem o seu concurso. Ela não é nem latina, como a Itália e a Espanha, nem germânica, como a Alemanha, nem anglo-saxônica, como a Inglaterra e os Estados Unidos; ela é céltica e, por sua situação e suas origens, pode servir de intermediária, de traço de união entre seus vizinhos. A influência de seu pensamento, de sua ação e suas radiações penetram neles sem que eles o saibam.

Nesse sentido, depois de sua obra de pacificação política e material, cabe-lhe trabalhar em uma restauração intelectual e moral, pois não pode haver restauração intelectual e moral completa sem uma educação nova, inspirada por um ideal elevado, por uma fé racional e científica que eleve as almas acima dos horizontes estreitos da vida e lhes revele o objetivo a atingir.

A França deve trabalhar nessa renovação, necessária, primeiro para ela mesma, para os seus próprios interesses. Pois que o tempo urge, assinalam-me, de toda parte, sinais não equívocos de decadência moral e de desagregação social. Parece que as forças vivas da nação estão ameaçadas. Mas, por outro lado, constatam-se atos de iniciativa privada, esforços generosos que, multiplicando-se, permitem tudo aguardar, tudo esperar. Com efeito, em muitos de nossos compatriotas a alma cristã, guardiã das virtudes do Evangelho, coincide, sem o saber, com a alma céltica menos passiva, mais viril, mais ardente.

A revelação dos espíritos, as informações vindas do Além, ensinando-lhes a conhecer-se, a discernir o alvo supremo, darão a estes dois suportes psíquicos o meio de fundir-se, ficando apenas uma alma, a alma francesa imperecível, imortal, evoluindo em direção a seus altos destinos. A grande voz dos espaços traz-nos o reconforto, a força moral, a confiança em nós mesmos e no futuro.

Já que outras doutrinas reconheceram-se impotentes para reagir contra os males que nos assediam e para fornecer-nos o pão saboroso da alma, remontemos, então, com o Espiritismo, às nossas origens, às puras tradições de nossa raça, ao que constitui nosso verdadeiro patrimônio. Enquanto essas doutrinas se deterioraram em sua luta secular contra a matéria, nós reencontraremos nosso patrimônio intelectual e moral no mais profundo das consciências célticas, intacto e quase virgem.

O principal argumento de nossos detratores é que As Tríades, esta magistral síntese dos druidas, é apócrifa e remonta, quando muito, à Idade Média. É verdade que nós possuímos a sua tradução francesa há apenas cem anos, mas quase todos os autores antigos, gregos e latinos, conhecem-na e, entre outros, Diógenes Laércio cita várias Tríades no século II de nossa era.

As Tríades representam uma epopeia da alma, elevando-se do inconsciente até à consciência mais alta por séries de etapas ou de vidas sucessivas das quais cada uma traz em si mesma seus antecedentes.

O Universo, escala dos mundos, é apenas um degrau para subir gradualmente na direção de grupamentos espirituais mais puros, mais sutis, mais radiosos, e gozar de uma vida intensa e radiante.

Segundo As Tríades, o Universo é regido por leis, leis de evolução, de progresso e de justiça que emanam de uma fonte eterna de inteligência, de sabedoria, de luz; essas leis trazem em si mesmas sua sanção, fazendo recair sobre o ser todas as consequências de suas obras. Por uma espécie de mecanismo moral, o ser, por suas aspirações, por seus atos, se eleva para sociedades melhores, em cujo seio ele experimenta sensações mais delicadas, enquanto, por seus vícios e suas paixões, ele se acorrenta aos mundos materiais.

Essa revelação da pluralidade das vidas pelas Tríades lança uma viva luz sobre o destino do ser. Por ela, a personalidade do homem se engrandece; tudo se repara, tudo se resgata. O homem se torna o autor consciente, o instrumento responsável de seu próprio porvir, ele se liberta, pouco a pouco, das baixas contingências planetárias e das brutais impulsões do interesse, desenvolvendo-se por seus próprios esforços, por todas as aquisições de sua inteligência, de sua razão e de seu coração.

Cada vida traz-lhe um conhecimento, uma força e um poder novos, e a solidariedade mais estreita o liga a todos os seres. Ele se eleva, assim, através de degraus, em direção ao lar supremo do qual ele se torna uma radiação consciente e fecunda.

O ser é, então, chegado ao círculo da vida celeste: “Gwynfyd”, que a “Tríade 45” descreve nestes termos: Três plenitudes da felicidade de “Gwynfyd”: participar de toda qualidade com uma perfeição principal; possuir toda espécie de aptidão com um talento preeminente, enlaçar todos os seres em um mesmo amor, com um amor de primeira linha, ou seja, o amor de Deus; e é nisso que consiste a plenitude do céu ou “Gwynfyd”.

Léon Denis

(1) Ogham: A mais antiga escrita céltica conhecida. (N.T.).


Voltar para a página anterior / Voltar para a página principal