Cézar Carneiro de Souza



Um desafio ao Espiritismo

23-08-2014
Materialismo e Espiritismo

Conta-se que o Dr. Adolfo Bezerra de Menezes orientava, no Rio, uma reunião de estudos espíritas, com a palavra livre para todos os circunstantes, quando, após comentários diversos, perguntou se mais alguém desejava expressar-se nos temas da noite.Foi então que renomado materialista, seu amigo pessoal, lhe dirigiu veemente provocação:

– Bezerra, continuo ateu e, não somente por meus colegas mas também por mim, venho convidá-lo a debate público, a fim provarmos a inexpugnabilidade(1) do Materialismo contra as pretensões do Espiritismo. E previno a você que o Materialismo já levantou extensa lista de médiuns fraudulentos; de chamados sensitivos que reconheceram os seus próprios enganos e desertaram das fileiras espíritas; dos que largaram em tempo o suposto desenvolvimento das forças e fizeram declarações, quanto às mentiras piedosas de que se viram envoltos; dos ilusionistas que operam em nome de poderes imaginários da mente; e, com essa relação, apresentaremos outro rol de nomes que o Materialismo já reuniu, os nomes dos experimentadores que demonstraram a inexistência da comunicação com os mortos; dos sábios que não puderam verificar as factícias ocorrências da mediunidade; dos observadores desencantados de qualquer testemunho da sobrevivência; e dos estudiosos ludibriados por vasta súcia(2) de espertalhões... Esperamos que você e os espíritas aceitem o repto(3).

Bezerra concentrou-se em prece, alguns instantes, e, em seguida, respondeu, aliando energia e brandura:

– Aceitamos o desafio, mas tragam também ao debate aqueles que o Materialismo tenha soerguido moralmente no mundo; os malfeitores que ele tenha regenerado para a dignidade humana; os infelizes aos quais haja devolvido o ânimo de viver; os doentes da alma que tenha arrebatado às fronteiras da loucura; as vítimas de tentações escabrosas que haja restituído à paz do coração; as mulheres infortunadas que terá arrancado ao desequilíbrio; os irmãos desditosos de quem a morte roubou os entes mais caros, a cujo sentimento enregelado na dor terá estendido o calor da esperança; as viúvas e os órfãos, cujas energias terá escorado para não desfalecerem de saudade, ante as cinzas do túmulo; os caluniados aos quais terá ensinado o perdão das afrontas; os que foram prejudicados por atos de selvageria social mascarados de legalidade, a quem haverá proporcionado sustentação para que olvidem os ultrajes recebidos; os acusados injustamente, de cujo espírito rebelado terá subtraído o fel da revolta, substituindo-o pelo bálsamo da tolerância; os companheiros da Humanidade que vieram do berço cegos ou mutilados, enfermos ou paralítico, aos quais terá tranquilizado com princípios de justiça, para que aceitem pacificamente o quinhão de lágrimas que o mundo lhes reservou; os pais incompreendidos a quem deu força e compreensão para abençoarem os filhos ingratos e os filhos abandonados por aqueles mesmos que lhes deram a existência, aos quais auxiliou para continuarem honrando e amando os pais insensíveis que os atiraram em desprezo e desvalimento; os tristes que haja imunizado contra o suicídio; os que foram perseguidos sem causa aparente, cujo pranto terá enxugado nas longas noites de solidão e vigília afastando-os da vingança e da criminalidade; os caídos de todas as procedências, a cujo martírio tenha ofertado apoio para que se levantem...

Nesse ponto da resposta, o velho lidador fez uma pausa, limpou as lágrimas que lhe deslizavam no rosto e terminou:

– Ah! Meu amigo, meu amigo!... Se vocês puderem trazer um só dos desventurados do mundo, a quem o Materialismo terá dado socorro moral para que se liberte do cipoal do sofrimento, nós, os espíritas, aceitaremos o repto.

Profundo silêncio caiu na pequena assembleia, e, porque o autor da proposição baixasse a cabeça, Bezerra, em prece comovente, agradeceu a Deus as bênçãos da fé e encerrou a sessão.

Irmão X/Chico Xavier, do livro Estante da Vida, FEB - cap. 21.

Meditando na fala do Dr. Bezerra nos lembramos de Allan Kardec, em O LIVRO DOS ESPÍRITOS, vejamos:

147 – Por que os anatomistas, os fisiologistas e, em geral, aqueles que se aprofundam nas ciências naturais são, com frequência, levados ao materialismo?

O fisiologista narra tudo aquilo que vê. Orgulho dos homens que creem tudo saber e não admitem que alguma coisa possa ultrapassar os seus conhecimentos. Sua própria Ciência os torna presunçosos; pensam que a Natureza não pode ocultar-lhes nada.

E, encerrando o nosso estudo, lembramos também do Apóstolo Paulo em uma de suas Epístolas:

“A Ciência incha e o Amor edifica”.


NOTA DA REDAÇÃO:

(1) Inexpugnabilidade: Qualidade do que é invencível, imbatível.

(2) Súcia: Grupo de pessoas de má índole.

(3) Repto: Desafio; provocação.


Cézar Carneiro de Souza
cezarcarneiro@hotmail.com

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