Cézar Carneiro de Souza



O mendigo e o rei

29-04-2015

Posições

“Há longo, longo tempo, compareceram no Tribunal Divino dois homens recém-chegados da Terra.

Um trazia o sinal da muleta em que se apoiara.

O outro mostrava as marcas da coroa que lhe havia adornado a cabeça.

Fariam prova de humildade para voltarem ao mundo ou seguirem além...

Postos, um a um, na balança, o primeiro acusou enorme peso. Era ainda presa fácil de lutas inferiores, parecendo balão cativo.

O segundo, no entanto, revelava grande leveza. Poderia viajar em demanda dos cimos.

Inconformado, contudo, disse o primeiro:

– Onde a Justiça Divina? Fui mendigo paupérrimo, enquanto ele... E indicando o outro:

– Enquanto ele era rei... passei fome, ao passo que muitas vezes o vi no banquete lauto. Esmolava na rua, avistando-o na carruagem. Conheci a nudez, reparando-o sob manto dourado, quando seguia em triunfo... Vivi entre os últimos, ao passo que ele sempre aparecia como o primeiro entre os primeiros...

O outro baixou a cabeça, humilhado, em silêncio...

Mas o amigo sereno, que representava o Senhor, falou persuasivo:

– Viste-o na mesa farta, mas não lhe percebeste os sacrifícios ao comer por obrigação. Notaste-o de carro; entretanto, não lhe observaste o coração agoniado de dor, ante os problemas dos súditos a que devia assistência. Fitaste-o sob dourado manto nos dias de júbilo popular; todavia, não lhe contemplaste as chagas de sofrimento moral, diante das questões insolúveis... Conheceste-o entre os maiorais da Terra; entretanto, não sabes quantos punhais de hipocrisia e de ingratidão trazia cravados no peito, embora fosse obrigado a sorrir... Além disso, na posição de soberano, podia ferir e não prejudicou, desertar e não desertou... Na situação de mendigo, não foste lançado a semelhantes problemas da tentação...

Diante do companheiro triste, o ex-monarca recebeu passaporte para ascensão sublime.

Sozinho e em lágrimas, perguntou, então, o ex-mendigo:

– E agora?

O Ministro angélico abraçou-o, sensibilizado, e informou:

– Agora, renascerás na Terra e serás também rei.”

De: Irmão X.



Cézar Carneiro de Souza
cezarcarneiro@hotmail.com

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