Somente aqueles que conhecem a necessidade da purificação do Espírito diante das dívidas contraídas durante a passagem pela vida na Terra é que compreenderão a presença da dor, através do sofrimento.
Léon Denis, filósofo e estudioso do Espiritismo, fala da dor com a simplicidade e o valor que ela merece. Diz ele:
“O alvo que nos dirigimos está à nossa frente; nosso destino é caminhar para ele sem nos demorar no caminho.
Ora, as felicidades deste mundo imobilizam-nos; há atrasos, há esquecimentos, mas, quando a demora é excessiva, vem a dor e impele-nos para a frente.
Desde que para nós se abra uma fonte de prazeres, por exemplo, na mocidade, o amor, o matrimônio, e nos inebriamos no encanto das horas abençoadas, é bem raro que pouco depois não sobrevenha uma circunstância imprevista e o aguilhão se faz sentir.
À medida que avançamos na vida, as alegrias diminuem e as dores aumentam; o corpo e o fardo da vida tornam-se mais pesados. Quase sempre a existência começa na felicidade e finda na tristeza.
O declínio traz, para a maior parte dos homens, o período moroso da velhice com suas dificuldades, enfermidades e abandono. As luzes apagam-se; as simpatias e as consolações retiram-se; os sonhos e as esperanças desvanecem-se; abrem-se, cada vez mais numerosas, as covas em roda de nós.
É então que vêm as longas horas de imobilidade, inatividade, sofrimento; tudo isso obriga-nos a refletir, a passar muitas vezes em revista os atos e as lembranças de nossa vida. É uma prova necessária para que a alma, antes de deixar seu invólucro, adquira a madureza, o critério e a clarividência das coisas que serão o remate, o desfecho de sua carreira terrestre.
Por isso, quando amaldiçoamos as horas aparentemente estéreis e desoladas da velhice enferma, solitária, desconhecemos um dos maiores benefícios que a Natureza nos proporciona; esquecemos que a velhice dolorosa é o cadinho onde se completam as purificações.
Nesse momento da existência, os raios e as forças que, durante os anos da juventude, dispersávamos para todos os lados em nossa atividade e exuberância, concentram-se, convergem para as profundezas do ser, ativando a consciência e proporcionando ao homem mais sabedoria e juízo. Pouco a pouco vai-se fazendo a harmonia entre os nossos pensamentos e as radiações externas; a melodia íntima afina-se com a melodia Divina.
A todos aqueles que perguntam: para que serve a dor? Respondo: para polir a pedra, esculpir o mármore, fundir o vidro, martelar o ferro. Serve para edificar e ornar o templo magnífico, cheio de raios, de vibrações, de hinos, de perfumes, onde combinam todas as artes para exprimirem o divino, prepararem a apoteose do pensamento consciente, para celebrarem a libertação do Espírito!
A estátua, nas suas formas ideais e perfeitas, está escondida no bloco grosseiro.
Quando o homem não tem a energia, o saber e a vontade de continuar a obra, então, como dissemos, vem a dor. Ela pega no martelo, no cinzel e, pouco a pouco, a golpes violentos, ou, então, sob o vagaroso e persistente trabalho do buril, a estátua viva desenha-se em seus contornos flexíveis e maravilhosos.
Sob o quartzo despedaçado, cintila a esmeralda!"
Assim conosco!
Muita paz a todos.
Do livro O problema do Ser, do Destino e da Dor, de Lèon Denis.