Carlos Pompeia



Um caso interessante

15-12-2010

Entendi oportuno reproduzir este caso acontecido numa rodovia do estado de São Paulo, em circunstâncias tristes mas com desfecho especial e feliz, com mérito e coragem da parte do protagonista, que não só parou seu veículo mas deu crédito às informações que lhe foram passadas.

“O doutor Carlos Ryoma, que foi médico pneumologista em Campos do Jordão nas recuadas décadas de 40 e 50, contou ao seu filho Ryoki Inoue, episódio deveras impressionante.

Depois de longa permanência em nossa cidade, onde trabalhou como tisiologista, o médico, acompanhado da esposa, professora La Salette de Alpoim Inoue, mudou residência para a cidade de Taubaté.

Numa de suas idas e vindas pela rodovia Presidente Dutra, dirigindo seu veículo à noite, deparou, na altura do município de Pindamonhangaba, mais ou menos no local onde morreu tragicamente o cantor Francisco Alves, o Rei da Voz, um grave acidente de ônibus, do Expresso Brasileiro.

O ônibus tombado no acostamento, de um lado, e um caminhão do outro. A Polícia Rodoviária sinalizava o local com iluminação de alerta, pedindo aos veículos redução da velocidade.

Inúmeras ambulâncias alinhavam-se com as viaturas policiais. E um espetáculo dantesco: inúmeros corpos de passageiros do ônibus, vítimas do desastre, jaziam enfileirados ao longo do acostamento.

O médico Carlos Ryoma Inoue, ao deparar-se com aquele quadro terrível, parou o seu carro, oferecendo à Polícia Rodoviária os seus serviços de profissional da medicina.

Um dos guardas rodoviários foi dizendo: “Obrigado, pode tocar em frente que, como o senhor vê, não há ninguém vivo ou ferido entre os passageiros”.

Carlos Ryoma Inoue ligou o seu automóvel e prosseguiu viagem, transtornado com a visão dantesca que tivera, mas, ao chegar um quilômetro à frente, através dos farois do veículo, percebeu que uma mulher, com suas vestes ensanguentadas, fazia sinais enérgicos com a mão para que ele parasse o veículo à beira da rodovia.

Extremamente assustado, o médico jordanense reduziu a velocidade e foi parando, quando a mulher aflita e desesperada, aproximou-se da janela do veículo e disse: “Moço, por favor, volte ao local do acidente. Entre os corpos que estão no acostamento, há uma criança viva nos braços de sua mãe. Volte, por favor!”.

Tornou a insistir: “Volte, por favor!”.

Contrariado, o médico retornou ao local do acidente.

Estacionou o seu automóvel e, vagarosamente, foi se aproximando da cena de horror, onde jaziam inúmeros corpos inanimados a estendidos.

O Dr. Carlos Ryoma Inoue, passo a passo, foi conferindo, um por um, embora na escuridão, os cadáveres, procurando, sobretudo, um corpo de mulher.

Aproximou-se dele, ligou a sua lanterna e logo identificou a mulher que, havia poucos minutos, lhe fizera sinais para que estacionasse. Exclamou: “Meu Deus, a mesma mulher!”. E junto ao seu corpo, que encostava em outro cadáver, sob seus braços, havia um bebê também ensanguentado.

Percebendo sinais vitais na criancinha, rapidamente tomou-a em seus braços e chamou a Polícia Rodoviária, que providenciou os socorros àquele pobre sobrevivente que passara despercebido por entre os corpos inanimados.

A criança foi salva, graças à mãe morta.

O médico não contou aos policiais rodoviários que fora a própria mãe que o fizera retornar ao local do acidente.

Não o fez, porque achariam que estava louco ou ficara desnorteado ante a visão terrível da tragédia. Disse apenas que uma força interior, muito poderosa, o fizera regressar.

Incrível, mas verdadeiro. A mãe morta salvara o filho”.

Este episódio é relatado pelo escritor e Advogado Dr. Pedro Paulo Filho, de Campos do Jordão-SP, no livro de sua autoria Contos Bem Contados, da Editora Vertente.


Carlos Pompeia
carlospompeia@yahoo.com.br

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