Quem nunca desejou sabê-la? Mas, por outro lado, qual, dentre os mortais, já nos respondeu? Decorre disso, dessa indecisão, que a forma da alma tenha permanecido assim, quero dizer, envolta em milenários mistérios. Mas no declínio da Idade Média – período intermediário da História da Europa, o qual se inicia com a desintegração do Império Romano do Ocidente, no século V, em 476 d.C., e termina com o fim do Império Romano do Oriente, com a queda de Constantinopla, no século XV, em 1453 d.C., ou com a descoberta da América, em 1492 – a metafísica da forma da alma começou a mudar.
Nascido francês em 31 de março de 1596, o jovem e futuro filósofo RENÊ DESCARTES teve na Alemanha, em 1619, quando serviu nas tropas do duque MAXIMILIANO da Baviera, uma noite recheada com três sonhos sucessivos os quais designou como “notáveis”, motivo pelo qual interpretou-os como sendo a indicação-revelação de sua missão na Terra: instituir as bases duma “ciência admirável” que unificaria todo conhecimento humano a partir dum fundamento seguro para, a partir daí, erigir o edifício iluminado pelas verdades advindas das certezas racionais de um espírito atento.
Era a noite de 10-11 de novembro e viviam-se ainda as empolgantes quão audaciosas conquistas marítimas bem como as conquistas científicas do XVI – a descoberta do Brasil, o reconhecimento da América como Novo Mundo, a fabricação do primeiro relógio, a descoberta do Oceano Pacífico, a circunavegação da Terra, a solução das equações cúbicas, o registro da posição das caudas dos cometas, etc. – e também viviam, os homens ocidentais, as paixões pelas descobertas das antigas ciências humanas e filosóficas, forjadas pelos antigos gregos, as quais vinham remodelar as caducas concepções duvidosas ainda prevalecentes na Metafísica.
Estava ocorrendo uma mudança geográfica do mundo e o intelecto efervescia: tratava-se do Renascimento – movimento literário, científico, e artístico, teve como característica principal a imitação dos modelos das civilizações grega e latina, o qual despertou na ITÁLIA, no XV e, no XVI, difundiu-se pelos outros países da Europa –. Com a “Renascença” ousava-se sacudir e rejeitar as idéias até então vigentes, garantidas como sempre estiveram pelo peso da autoridade – não nos esqueçamos de que vivia-se sob as constantes ameaças da famigerada e mortífera “Inquisição” católica, de sangrentas recordações, a qual combatia quaisquer pensamentos considerados por ela, e do ceticismo generalizado de MICHEL DE MONTAIGNE (1533/1592), o qual combatia as superstições tidas como histórias verdadeiras mas que não passavam de pobres pretensões por carecerem de pelo menos uma sustentação racional que fosse –.
Agora aquelas “autoridades políticas e religiosas” ver-se-iam contestadas em suas unidades política, teológica, científica, e filosófica, fazendo com que a Tradição bíblica ruísse com estrondo ao ser posta em confronto com as descobertas mais recentes das leis matemáticas-astronômicas, antropológicas, tecnológicas, e sociológicas, porquanto aquelas singelas unidades-noções jamais possuíram quaisquer pedestais lógicos capazes de se contrapor e superar os novos conhecimentos hauridos não das qualidades das coisas mas sim das suas quantidades. Estava desaparecendo o mundo qualitativo dos sentidos e, em seu lugar, nascendo o mundo quantitativo da razão aritmética-geométrica.
Isto posto, DESCARTES teria que reconstruir tudo novamente, porém a partir dum moderno ponto de partida a fim de fazer um novo itinerário, este claro e seguro, porquanto o homem não pode viver na insegurança das incertezas absolutas. Buscou então um novo método para a ciência, um método cujo centro não mais seria os sentidos, porque estes nos enganam, mas a razão, e o paradigma desta seria a Matemática, única ciência exemplar, por ser exata, com seu método dedutivo. E como temia que a igreja católica o matasse devido à modernidade das suas concepções intelectuais – recordemo-nos de que o nosso filósofo sabia que, em 1600, aquela instituição salvadora de almas torturara e assassinara o filósofo italiano GIORDANO BRUNO, considerando hereges os seus pensamentos negadores das idéias aristotélicas de um universo fechado e defensores da tese copernicana, e que em 1633 ameaçara de morte o físico e matemático italiano GALILEU GALILEI –, então demorou a publicar suas obras, só o fazendo na HOLANDA, país de tradição libertária, para onde se exilou.
Em 1628 escreveu as Regras para Direção do Espírito, em 1644 publicou o Discurso do Método, e em 1641 surgiram as Meditações Metafísicas, nas quais nos deteremos por ser a obra de interesse ao nosso título. Nesta surgiu a questão sobre a forma da alma quando se perguntou: “que sou eu, que sei que sou porque existo? Uma alma? Mas o que é a alma? Algo raro e sutil? Um vento-ar-sopro, entranhado em minhas carnes grosseiras? Uma flama?”. E concluiu: “sou uma coisa que pensa” e, como “esta coisa pensante” pensa o próprio pensamento, então DESCARTES tinha consciência de que pensava e existiria enquanto continuasse a pensar. Eis o que é o espírito: algo que pensa-existe, um entendimento, uma razão. Disse-nos, portanto, “o que” era a alma, mas não nos disse “como” era a alma, ou seja, qual a forma da alma. Aliás, morreu sem resolver o enigma por si mesmo proposto, pois, sendo “uma coisa”, então, necessariamente, essa “coisa pensante” teria que ser dotada duma forma.
Não obstante o nosso pensador abriu, com seu objetivismo científico e filosófico, novos portais para o Moderno Espiritualismo, ou o Espiritismo, que o sucederia 207 anos após, seguindo suas pegadas iluministas com o advento d’“O Livro dos Espíritos” em 1857. Mas como a indagação pela “forma da alma” ainda permanecia em aberto, a Doutrina dos Espíritos nos informou que as almas têm, porque conservam consigo, as mesmas características das nossas formas humanas atuais. Eis como as veem os médiuns videntes cuja faculdade, de vidência, possibilita-lhes ver, investigar, e comprovar, o mundo espiritual, além, é óbvio, das milhares de comunicações psicofônicas recebidas sobre o título.
As almas guardam em seus períspiritos, ou seus corpos espirituais, nossos mesmos traços qualitativos-quantitativos e, para as almas puras, acrescentemos a beleza, que é o bom equilíbrio, ou simetria, entre as partes. Se não fosse exatamente desse modo, então expliquem-me como seriam elas: lascas de DEUS? Clarões? Ora, francamente, do que estão nos falando? Certamente explicando algo que não sabem pelo que sabem menos ainda, parafraseando o “Codificador”.
Temos mais o que fazer do que ouvir semelhantes balelas.
Caso queira saber mais, leia “O Livro dos Espíritos”, de ALLAN KARDEC.