Hoje ficaremos apenas neste contraditório, o de que a Doutrina dos Espíritos, na contramão da Tradição religiosa lastreada em inumeráveis concílios, incomoda e muito, pois, enquanto para as Igrejas só se vive uma vez (Hb 9:27), para os Centros Espíritas são incontáveis as reencarnações. O problema consiste, então, em se saber qual das duas opções mais satisfaz à razão especulativa: se a antiga ou a moderna.
O que a esmagadora maioria religiosa desconhece são as estatísticas: mais da metade mundial crê na reencarnação como aplicação da Suma Justiça – DEUS –, senão, como explicar tantas disparidades econômicas, sociais, de saúde, históricas, de caráter, etc.? A reencarnação “cai como uma luva” ao girar, como chave única e perfeita, o miolo da fechadura, abrindo a porta da fé cega e tornando-a racional-experimental. Senão, vejamos: IAN STEVENSON, psiquiatra canadense, pesquisou-a por mais de 37 anos e há décadas legou-nos a coleta dos relatos de suas experiências com todo seu rigor científico no excepcional livro “20 Casos Sugestivos de Reencarnação”. Encontrou-os na ÍNDIA, LÍBANO, TURQUIA, TAILÂNDIA, BURMA, ..., entre as crianças prodígios, entre as que se recordavam naturalmente, e entre as que se recordavam pela Terapia de Vidas Passadas (TVP). Seus seguidores investigam hoje os casos norte-americanos. O mesmo fez o engenheiro brasileiro HERNÂNI GUIMARÃES ANDRADE, acrescentando neles as comunicações mediúnicas como novo fato de comprovação. Não fez por menos: descobriu 16 casos de reencarnações no BRASIL, sendo alguns deles no VALE DO PARAÍBA.
BRIAN WEISS, Presidente Emérito do Departamento de Psiquiatria do Centro Médico Monte Sinai, em MIAMI, autor de “Muitas Vidas, Muitos Mestres”, e que já esteve 8 vezes em SÃO PAULO, desenvolve suas pesquisas sobre reencarnação, sobrevivência da alma humana após a morte, TVP, e projeção de vida futura. CAROL BOWMAN, terapeuta norte-americana, narrou-nos, no 6º Congresso Espírita Mundial (Out/2010, em VALENÇA/ESPANHA), o caso de seu filho CHASE, de 5 anos, o qual se recordava de haver sido um soldado negro morto em pequena emboscada, posteriormente confirmada em livro encontrado na biblioteca. As evidências históricas se acumulam, forçando psicólogos, biólogos, engenheiros, filósofos, sacerdotes, pastores, rabinos, a repensar suas modestas bases fideístas sem comprovação científica.
Na vida nada se perde, a memória se conserva no ser espiritual que a reapresenta ao reencarnar através das facilidades em áreas já dele bem conhecidas.
“Entretanto, frequentemente surgem homens que recordam o passado com impressionante lucidez: EMPÉDOCLES lembrava-se de ter vivido antes; PITÁGORAS afirmava haver sido Hermotimo e Euforbo; JULIANO, o Apóstata, dizia-se Alexandre Magno; FLAMMARION cria ser a reencarnação do poeta espanhol Don Alonso de Ercilla. O espírito tudo conserva e não pára, senão como progrediria sempre em conhecimento e moral? JESUS CRISTO era reencarnacionista, conforme lemos em seu ensino a NICODEMUS sobre a necessidade de se 'nascer de novo', assim como também o eram PLATÃO, SÓCRATES, PLOTINO, PORFÍRIO, ORÍGENES, e TERTULIANO(1)”.
O espírito reencarna quando, no mundo espiritual, toma consciência dos seus erros, arrepende-se, e requer a DEUS outra nova oportunidade para resgatar a consciência culpada diante das Leis Divinas. Sente ser necessário pôr de pé tudo que derrubou, renascendo junto dos seus ex-desafetos que reencontrará como pais, filhos, parentes, patrões, todos considerados “difíceis”. Eis a única explicação inteligente para as simpatias e antipatias espontâneas-gratuitas, problema insolúvel no âmbito das ciências da mente e somente solucionado no interior do Espiritismo, quando do seu advento. E mais: com a reencarnação restitui-se a DEUS o atributo infinito de ser a própria Justiça, senão, como entender a disparidade entre duas famílias: uma sempre na miséria, dor, frio, fome, desemprego, e doença, enquanto outra se deita nos lençóis dourados da fartura, beleza, e riqueza? Tal problema foi considerado insolvível até antes do lançamento d’“O Livro dos Espíritos”, por ALLAN KARDEC, em 18 de abril de 1.857, em PARIS.
Assim sendo, somos hoje a expressão do que fizemos em vidas passadas e seremos amanhã o que fizermos na vida presente. E como o melhor para nós é vivermos a vida no Amor com que DEUS nos distingue, então o problema da reencarnação implica em nos tornarmos conscientes de não o haver cumprido. Portanto, diferentemente das teologias tradicionais, no Espiritismo não basta o simples arrependimento “para ser salvo” mas sim o árduo e corajoso trabalho de voltar/reencarnar e reconstruir o passado para se ir construindo o futuro. A vida é incessante, não há qualquer beatificação extática num Céu que só existe nominalmente, nem sofrimento eterno num Inferno escatológico. Aliás, ambos trazem pensamentos aterrorizantes consigo, mas por motivos diversos: o Céu, por ser tão difícil de entrar, e o Inferno, por ser tão fácil. O novo conceito espírita, retirando esses medos das mentes dos que neles acreditam, veio limpar, com a reencarnação, aquelas antigas idéias, todavia a reencarnação nelas já aparecia, não obstante esmaecida, com os nomes de “metempsicose”, “transmigração”, ou “ressurreição”.
“A vida sem a reencarnação é experiência sem justificativa. A reencarnação é uma idéia lógica e, por consequência, torna-se irrefutável. Causa e efeito, ação e reação, leis de progresso, reencarnação, e vida futura, nestes cinco pilares repousam as bases da misericórdia divina, mostrando-nos que a existência é um caminhar inteligente de acontecimentos aos quais nos encontramos sujeitos(2)”. A reencarnação não é o desvio da lei mas é sim a própria lei e, se é uma das leis de DEUS, então Lhe pertence e todos nela nos encontramos inseridos, sem exceção. E assim respondemos àquele problema inicial, pois para os Espíritos superiores não existem os “mistérios da fé” que nada dizem.
(1) VIANNA DE CARVALHO, Espírito; “in” “À Luz do Espiritismo”, página 63; médium DIVALDO FRANCO; Ed. Alvorada; 1ª edição; 1968. (Nota do Autor).
(2) “PALMINHA”, Espírito; “in” “Babili”, página 44; psicografia de JAIRO AVELAR; Ed. Itapuã; 1ª edição; Jul/2008 (Nota do Autor).