O surgimento do termo “Anjo” no mundo ocidental se deu na Bíblia, livro no qual, aliás, tudo ocorre a mando de DEUS. Este ordenara ao Querubim “ficar ao Oriente do Jardim do Éden, com uma espada na mão, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3:24), como se fosse preciso um Anjo, sobretudo armado, para impedir que os já castigados ADÃO e EVA desobedecessem-nO novamente. Enfurecido, DEUS prometera várias punições-sofrimentos ao primeiro casal: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este lhe ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”; à EVA prometeu: “Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; parirás com dor; o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará”; e para ADÃO não deixaria por menos: “em fadigas obterás da terra o teu sustento e comerás a erva do campo”. Repentinamente porém, demonstrando bondade, mas não sem antes haver amaldiçoado a terra por causa do Pecado Original, o Senhor “Fez vestimenta de peles para ambos e Ele mesmo os vestiu” (Gn 3:16-19). E assim a Bíblia prossegue exibindo a maldade inata do Pai: intempestivo, iracundo, vingador, cruel. Mas como ela é a Palavra de DEUS e DEUS não mente, então lê-la é tal qual ouvi-lO falar. Daí uma de duas: ou a Bíblia é falsa ou é verdadeira. Mas qual delas será verdadeira se mil dos ditos “Representantes de DEUS na Terra” lhe dão mil interpretações diferentes entre si? Em caso de dúvida, fiquemos então com o texto original, isto é, com a “Palavra”, tal como fez o filósofo BARUCH DE SPINOZA.
O problema hoje é o de encontrar quem, nestes 10 anos do terceiro milênio, ainda acredita naqueles escritos de MOISÉS: que DEUS não perdoa, pune e mata, tornando-se assim o introdutor da maldade, da inimizade, da dor, e da morte, no mundo. Está lá, basta ler. Mas outras injustiças advêm da Bíblia: a existência de Anjos, por exemplo, seres privilegiados existentes antes de ADÃO e Assistentes de DEUS para administrar o Cosmo. Não tiveram de passar pelas duras expiações do primeiro homem. E isso para não falar no famigerado “Demônio”, seu igual, posto que “ex-Anjo”, mas simultaneamente o seu contrário, posto que luta contra DEUS. Qual é a tragédia disso? A do critério divino não resistir à crítica moderna: por que não somos nós os Anjos e estes não são os homens? Será que DEUS joga dados? Se não, qual foi a Sua lógica?
E o homem inteligente, apalermado diante de tanto desprezo por parte da Divindade, por não A entender, desiste da fé logo nas primeiras páginas do Livro porque logo percebe faltar ao texto a necessária circunspecção moral. E a começar pelo próprio DEUS! Assim sendo, como deverão proceder os que o leem e raciocinam com a Ética? Nesse sentido os espíritas já entenderam que DEUS é o Ser Perfeitíssimo, infinitamente Bom e Justo e, se é assim, então ei-lO isento de qualquer resíduo de maldade. O que mudou no homem? No corpo, nada, no intelecto, tudo. Se as igrejas herdeiras da Bíblia assumiram-na, e se ela estiver errada, então terão sido pelo menos 4 mil anos desperdiçados: 2 mil do Antigo Testamento (AT) e mais 2 mil do Novo (NT)! Daí perguntarmos: como raciocinaremos com a Justiça divina se só se vive uma vez, conforme a Tradição, ou se vive-se várias vezes, conforme o “O Livro dos Espíritos”? Estarão condenados aqueles herdeiros da “fé cega”? Claro que não, pois, para fazê-los evoluir, DEUS se utiliza do mecanismo da reencarnação: somos, hoje, aqueles mesmos homens reencarnados que atualizamos nosso conceito sobre DEUS. Eis como os espíritas, pensam: evolutivamente.
O Espiritismo se acha muito distante de criar uma nova tradução bíblica – aliás cada ramo do Cristianismo em cada país tem a sua Bíblia particular, num flagrante combate para vencer a “melhor” –; em vez disso possui “O Evangelho Segundo o Espiritismo” (ESE) obra na qual se dissipam todas – disse “todas” – as dificuldades para o entendimento literal dos AT e NT a partir das suas formas alegóricas e os intencionais misticismos de sua linguagem. Uma nova Bíblia, bem como um novo Evangelho, são completamente desnecessários, daí o Espiritismo reunir naquela sua obra um código de moral universal sem distinções de culto, porquanto explica as passagens obscuras, ininteligíveis, até mesmo disparatadas, daqueles dois livros tão antigos. Tal chave nele se encontra no ESE(1) a exigir de cada um a reforma ética de si mesmo.
E onde repousa sua legitimidade existencial? Na simplicidade do entendimento das idênticas instruções trazidas pelos Espíritos superiores em todos locais da Terra por médiuns desconhecidos entre si. Eis a sua força à qual ninguém poderá destruir porque, hoje, os médiuns não mais podem ser assassinados pela Inquisição. Mas mesmo que o fossem, ainda assim não poderiam matar os Espíritos que fariam com que a Doutrina Espírita ressurgisse. Uma nova luz teológica, espiritual, moral, e lógica, passou a iluminar as consciências do homem cibernético, e o fenômeno mediúnico eliminou, e desta vez para sempre, os mitos dos Anjos e Demônios.
(1) ESE: O Evangelho Segundo o Espiritismo.