DEUS pode interferir no mundo, isto é, fazer milagres? Sim, pode, porque é o ser Todo-Poderoso. Mas DEUS interfere no mundo, fá-los? Não. E por que “não”? Por pelo menos dois motivos:
1º) Porque uma tal interferência significaria que o mundo nunca foi um mundo perfeito, já que o Ser Perfeito precisou e/ou ainda precisa intervir nele para corrigi-lo de imperfeições nele existentes e, por extensão, também em DEUS, seu Criador; entretanto, como o ser-DEUS é o único ser perfeito, digo melhor, o único “Ser Perfeitíssimo”, então Sua intervenção no mundo implicaria em este não ter sido criado perfeitamente. Todavia este mundo não é só perfeito como também “é o mais perfeito mundo possível”, pois, conforme nos afirmou e demonstrou o filósofo e iluminista alemão WILHELM LEIBNIZ, “vivemos no melhor dos mundos possíveis”; e
2º) Porque: ora, se pelas causas acima o mundo é um mundo perfeito, então que necessidade teria DEUS de nele intervir? Só para provar aos homens a Sua existência e a Sua onipotência? Seria lógico supormos que o Ser Perfeitíssimo, que de nada carece, passasse repentinamente a carecer da aprovação dos seres-homens imperfeitos? Pois se a Sua existência e a Sua onipotência estão aí no mundo mesmo, bem visíveis à inteligência humana!... Testificam isso os próprios mundos – o material e o moral – bem como as leis inteligentes e eternas que os regem!
Qual são pois as conclusões que podemos extrair desses raciocínios? Pelo menos duas:
1ª) Que, no limite, não pode existir o chamado “milagre”, uma vez que DEUS pode – por ser Criador e Todo-Poderoso – interferir no mundo, porém não o fez, não o faz, e nem o fará, por isso se constituir num ato ilógico, mas DEUS é lógico; e
2ª) Que esse pensamento é uma consequência do pensamento iluminista, posto que com a descoberta da inviolabilidade das leis da natureza, então fica excluído não apenas o milagre como também qualquer outra intervenção sobrenatural no curso do mundo por isso ser absolutamente impossível, uma vez que a natureza sempre foi, é, e será regida, por uma regularidade pontual e racionalíssima, portanto, mecânica. Daí que tal conhecimento científico a torna incapaz de se bastar a si própria – isto é, de ser “em-si” e de ser “por-si” – e implica, imediatamente, na afirmação de uma ordem divina operando sobre a ordem natural das coisas.
A questão agora sofre um deslizamento a partir do fato lógico da regularidade mecânica da natureza ser, por si só, racional, e nos obriga a questionar: podemos afiançar que a regularidade mecânica da natureza é racional? Para responder devemos antes nos perguntar: o que vem a ser “racional”?
Algo que funciona eterna e mecanicamente sempre do mesmo modo, invariável, pode ser dito “racional”? Não. E por que “não”? Porque tudo o que é mecânico é, exatamente por ser mecânico, aquilo que exclui a capacidade intelectual-reflexiva de calcular tal qual a razão opera: calculando pelo raciocínio. Disso resulta que tudo que é mecânico é irracional e, conseguintemente, o que é mecânico jamais pode operar como causa – e muito menos como causa de si mesmo –, apenas como efeito.
Desse construto segue-se que o mecanicismo encontrado no âmago da natureza é apenas o reflexo – o efeito – de uma causa original-racional que calculou antes como o mundo deveria funcionar: mecânico, automático, e irracionalmente, qual seja, uniformemente igual.
Conclusão: se a natureza opera de um modo que é sempre o mesmo e sempre identicamente perfeito, então a sua causa só pode ser perfeita, e à causa perfeita denominamos “Ser Perfeito”, ou o ser perfeitamente racional: “DEUS”.
É assim, de um modo racional, lógico, científico, que o Espiritismo afasta a vera superstição do milagre da mente humana e afirma que só há um milagre: a natureza criada por DEUS, qual seja: a Criação.