Joel F. de Souza



Dons

27-09-2012

Houve um período funéreo no interior da História da Filosofia que a inundou de tristeza e desolação: fora iniciada sua desconstrução metafísica. Explico: quando em 1642 o filósofo francês RENE DESCARTES publicou suas “Meditações Metafísicas”, o mundo intelectual científico e filosófico-teológico festejou a descoberta inteligente do “eu-sujeito” – ou “espírito-consciência" –; festejou outrossim a razão que, autonomicamente, isto é, sem necessidade da igreja asfixiante, demonstrara teórica e lucidamente a existência da alma-espírito como “uma coisa pensante”, conceito moderno a substituir o antiquado e obscuro contido na Bíblia que nada acrescentava ao entendimento: o de “sopro; ar; vento”, termos pelo qual tentou explicar, em infelizes tentativas, o que não sabia pelo que sabia menos ainda, evidenciado em sua pobreza de linguagem tanto quanto de cientificidade tão propalada!

A desconstrução viria após DESCARTES, felicitando os céticos, ateus, materialistas, e niilistas. Para estes ela ainda perdura e, nesta relação, devemos ainda incluir as religiões espiritualistas-orientalistas, as católicas, e as protestantes, por nada terem podido lha responder, emudecendo-se num silêncio inquietante quão profundo, durável até nossos dias, por exclusiva ausência de argumentos. A “desconstrução metafísica” começou com o pensador racionalista-empirista-psicologista inglês, JOHN LOCKE, exatamente, ao inibir as “ideias inatas”; prosseguiu com GEORG BERKELEY ao negar a existência da matéria; e aparentemente terminou com DAVID HUME que fez desaparecer as ideias dos “eu-alma” e DEUS. Havia decorrido 209 anos desde a obra cartesiana. Mas o golpe final, certeiro e fatal, sobreviria com IMMANUEL KANT, o genial filósofo alemão e maior de todos os céticos, quando derramou sua pá de cal na fé religiosa ao demonstrar teoricamente que a razão humana não se encontrava suficiente mobiliada para afirmar as realidades dos entes alma e DEUS. Completou-se assim aquela desconstrução onto, pneuma, e teológica.

Imperioso portanto rebater-lhe sob pena de não mais se poder afirmar a Metafísica espiritual. Mas, curiosamente, o egrégio e reflexivo sábio teve que adotar em seu sistema um estranho quão bizarro ícone, nominado “eu transcendental”, individualidade funcional por tornar possível o conhecimento de toda experiência possível. Ele seria a unidade lógica-sintética de todas as percepções-conceitos e sensações-intuições – como KANT chamava esta última – e estaria impossibilitado de prosseguir além da experiência.

O que temos aqui? Que, não obstante seu esforço inaudito, o pensador não conseguiu se desvencilhar do inatismo, porquanto aquele “eu transcendental” teria que possuir em si os mesmos dons do espírito negado, quais sejam: sensibilidade e pensamento, condições “a priori” para conseguir elaborar uma teoria do conhecimento sobre qualquer objeto e para emitir o juízo do que este seja.

A Filosofia se surpreendeu por haver sido colocado algo aberrante em lugar da inexistência da alma por não se saber exatamente o que seria aquele “eu transcendental”, contudo, mesmo sem poder conhecer a essência da coisa – o que ela é mesma –, mas tão-somente a sua aparência fenomênica – a sua forma externa como aparece para nós –, a filosofia positiva de KANT permaneceu no pensamento ocidental e influenciou o Direito e a Ciência. Todavia perdurariam naquele “eu transcendental” as infinitas potencialidades anímicas: inteligência, memória, e vontade, ou seja, nada mais nada menos do que os dons da alma.

E assim transcorreram 76 anos, desde a “Crítica da Razão Pura”, até que viesse à lume, em 1861, em PARIS, o “O Livro dos Médiuns”, obra notável do sábio pedagogo francês DENISARD HIPPOLITE LEON RIVAIL – cognominado “ALLAN KARDEC” em homenagem à sua reencarnação como sacerdote druída –, o qual trataria doutros dons do espírito, dentre os quais o ali abordado: a mediunidade. O homem, segundo o Espiritismo, é um espírito reencarnado que pode se pôr em contato inteligente com o mundo espiritual desde que seja dotado daquela potencialidade inata e especial; e é a universalidade da mediunidade que a torna científica, pois nos ocorre na mais simples de todas como, por exemplo, a intuição pelo pressentimento. Ela é o que escreveu PAULO de Tarso em Rm, 12:6: “... tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada: se profecia, seja segundo a proporção da fé; se ministério, dediquemo-nos ao ministério; ou o que ensina, esmere-se no fazê-lo; ou o que exorta, faça-o com liberalidade; o que preside, com diligência; quem exerce misericórdia, com alegria”. O “O Livro dos Médiuns” nos demonstrou pelas manifestações mediúnicas-espirituais experimentais-sensíveis, consoante o desejo kantiano, a preexistência, sobrevivência, e imortalidade da alma, confirmando assim a ciência Metafísica da qual era “um apaixonado”.


Joel F. de Souza
bigjoel@terra.com.br

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