Joel F. de Souza



"O Auto de Fé de Barcelona"

13-11-2011

BARCELONA - ESPANHA, 09 de outubro de 1861, quinta-feira, 10:30 horas.

Eis a data histórica de amarga memória para nós, espíritas, marcada que foi por mais uma tragédia religiosa perpetrada pela tradicional Igreja Católica Apostólica Romana. Na verdade foi apenas mais uma por ela provocada, dentre as milhares, desde quando se deu o advento de sua malfadada Inquisição (do Latim “inquisitio”, que significa “interrogatório, tortura, castigos”), introduzida nos tribunais eclesiásticos pelo Papa INOCÊNCIO III (1199). Esta foi confiada, no século XIII, à Ordem dos Dominicanos para lutar contra a seita dos cátaros albigenses, do Sul da FRANÇA, acusados do “crime”, pasme, de unicamente quererem viver sua crença, tal qual ela fora vivenciada no início do Cristianismo, devido ao seu desfiguramento já naquela época. Contudo consigne-se que, antes desta, houve várias outras, como a perseguição aos divergentes donatistas-rigoristas do Norte da ÁFRICA, nos séculos IV e V, por estes não concederem o perdão aos bispos que fraquejaram nas perseguições romanas e, em consequência, não reconhecerem os sacramentos administrados por eles.

Mas a Inquisição, propriamente dita, surgiu em 1232 quando o Imperador FREDERICO II lançou éditos de perseguição aos hereges em todo Império pelo receio de divisões internas. Então o Papa GREGÓRIO IX, temendo as ambições político-religiosas do Imperador, reivindicou para si essa tarefa e instituiu os Inquisidores Papais, recrutados entre a Ordem dos Dominicanos em 1233, seja por causa de sua rigorosa formação teológica – eram tomistas –, seja por também pelo fato de serem mendicantes e, por isso, presumivelmente desapegados de interesses mundanos.

Em 1542 o Papa PAULO III criou a Congregação do Santo Ofício, ou a Congregação da Suprema Inquisição, para combater o Protestantismo; em 1908 teve o seu nome mudado para Santo Ofício; em 1917 incumbiu-se da censura dos livros (o antigo “Index Prohibitorum”, ou “Índice dos Livros Proibidos”); e em 1965 converteu-se na Congregação para a Doutrina da Fé, qual seja, a única congregação no mundo dotada da capacidade de legislar sobre questões de fé e de moral!

Essa loucura católica anticristã – porquanto JESUS jamais aprovaria tal desvario psicopatológico –, esse delírio de grandiosidade pelo exercício da força bruta, esse hediondo preconceito disparatado e assassino, matou milhões de pessoas ao longo de 700-800 anos! Você duvida? Então vá consultar a História e atualizar-se com relação ao local onde está pondo a sua fé! Irá, sem dúvida, escandalizar-se ao tomar conhecimento dos homens e mulheres presos em masmorras imundas, emagrecidos, humilhados por tantas sevícias – de preferência as mulheres “por serem mais carnais”, conforme consta dos manuais operacionais da “Santa” Inquisição, como os abaixo –:

1º) O “Malleus Maleficarum”, ou o “Martelo das Bruxas”, de 1487, escrito por HEINRICH KRAEMER e JAMES SPRENGER; e

2º) O “Directorium Inquisitorum”, ou o “Diretório/Manual dos Inquisidores”, escrito por dois peritos em jurisprudência e teologia, NICOLAU EYMERICH, em 1376, e FRANCISCO PEÑA que, atendendo o pedido do Senado da Inquisição Romana, para combater as novas heresias, atualizou-o e completou-o, tendo sido editado em 1585.

Em 1765, em PORTUGAL, realizou-se o último Auto-de-Fé público, mas em 1774 foi elaborado o novo regimento que restringia a pena de morte aos casos excepcionais; em fins do século XVIII a Inquisição, tanto em PORTUGAL como na ESPANHA, transferiu suas perseguições aos maçons (pedreiros-livres) e aos partidários das idéias dos enciclopedistas e iluministas. Finalmente, em 31 de março de 1821, PORTUGAL aboliu-a, o mesmo acontecendo na ESPANHA até 15 de julho de 1.834, por ato da rainha MARIA CRISTINA.

Mas, curiosamente, ressurgiu no fato em pauta, em BARCELONA, na Plaza do Quemadero, hoje Plaza Sant Jaume, na qual se tornou conhecido com a expressão o “O Auto de Fé dos Livros Espíritas de BARCELONA”, outro cruel e covarde ato de brutalidade da intransigência religiosa contra quaisquer novos ares do pensamento livre, a mais elevada conquista do homem, cuja apoteose se deu com a Revolução Francesa (1789).

Tudo aconteceu porque o livreiro francês MAURICE LACHÂTRE, estabelecido comercialmente naquela cidade, encomendou ao distinto Professor HYPOLLITE LEON DENIZARD RIVAIL, nome de batismo de ALLAN KARDEC, o Codificador do Espiritismo, 300 exemplares dos seguintes livros espiritualistas e seus respectivos autores: Revista Espírita (ALLAN KARDEC); Revista Espiritualista (PIERARD); O Livro dos Espíritos (ALLAN KARDEC); O Livro dos Médiuns (ALLAN KARDEC); O Que é o Espiritismo (ALLAN KARDEC); Fragmentos de Sonata (Espírito MOZART); Carta de um Católico Sobre o Espiritismo Dr. GRAND); A História de JOANA D’ARC, ditada por ela mesma (ERMANCE DUFAUX); e A Realidade dos Espíritos Demonstrada pela Escrita Direta (Barão de GULDENSTUBBÉ). Na impossibilidade de matar os seus autores, que se queimem, então, os seus livros, crentes de que, assim procedendo, também matariam as suas ideias, esse era o seu princípio. Ledo engano, pois a curiosidade foi maior e o tiro clerical acabou saindo pela culatra, pois transformou o episódio numa grande propaganda do Moderno Espiritualismo, ou a vertente do Espiritualismo que desvelou o véu da Metafísica e possibilitou que os Espíritos passassem a se comunicar regularmente com os homens, fazendo com que nunca mais a História Religiosa fosse a mesma.

O incansável lidador ALLAN KARDEC tratou do tema nas Revistas Espíritas de 1861, 1862, e 1864, destacando a comunicação espiritual espontânea do autor daquele Ato, o Bispo de BARCELONA, falecido em 09 de agosto de 1862.

Saiba mais, saia da obscuridade intelectual, leia “O Que é o Espiritismo”, de ALLAN KARDEC.


Joel F. de Souza
bigjoel@terra.com.br

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