A história religiosa da Humanidade tem nos livros seus fundamentos particulares; eles perpetuaram seus ensinos conduzindo as mentes, como ainda hoje fazem, mensageiros da vida espiritual que são.
Assim sendo, o “Mahabharata”, do XVI aC, nos apresenta KRISHNA no “Bagavad-Gita” onde repontam as nobres revelações palingenésicas; a “Bíblia”, em seu Antigo Testamento, historia a jornada de Israel e nos oferece a concepção do DEUS Único, Soberano de todas as coisas; a Filosofia tem o seu coroamento no “Fédon”, de PLATÃO, ao demonstrar a pré-existência, existência, sobrevivência, e eternidade, da alma; o “Evangelho”, escrito pelos apóstolos de JESUS-CRISTO, fez do amor o celeiro de bênçãos da Humanidade; o “Alcorão”, no VII dC, aborda a unicidade divina, a purificação, e a vida da comunidade muçulmana, etc. E na esteira do Novo Testamento seguiram-se outros livros: no II dC a “Apologética” de TERTULIANO; no IV dC “As Confissões”, de AGOSTINHO; etc.; até que finalmente, no XIX, nas pegadas do revolucionário Iluminismo europeu, surgiu “O Livro dos Espíritos”, compilado pelo insigne pedagogo ALLAN KARDEC. Será sobre este livro que iremos falar.
Analiticamente, se o termo “livro” significa “reunião de folhas soltas”, compondo um conjunto correspondente a uma obra que desenvolve uma questão central em seu interior, então “O Livro dos Espíritos” é uma obra cuja questão central, distribuída ao longo das suas muitas folhas, trata de um objeto específico: os Espíritos. Quem são? De onde vêm? Como vivem? O que fazem entre nós? Para onde vão? Etc.
Sua tarefa é a de esclarecer, através dos temas desenvolvidos pelos Espíritos superiores – seus autores – o que vem a ser o Espiritismo, pois neste se encontram os princípios teóricos e empíricos que dão sustentação aos diferentes fenômenos das manifestações espirituais. As transmissões dos seus ensinos foram recebidas pelos incontáveis médiuns espalhados por todos os países e isso tornou o Espiritismo uma religião universal.
Ele se estrutura em quatro partes, cada uma com seus assuntos particulares:“As Causas Primeiras”; “O Mundo dos Espíritos”; “As Leis Morais”; e “As Esperanças e Consolações”.
“O Livro dos Espíritos” introduz o seu discurso a partir das “Causas Primeiras” e finaliza-o nas “Esperanças e Consolações”; ele começa do conceito teórico e, por isso, necessariamente lógico e epistemológico de DEUS, e se encerra no conceito prático dos Seus ensinos, das Suas leis, da Sua vontade, ou seja, das Esperanças e Consolações que nós, os únicos seres-agentes- pensantes da Criação, podemos esperar de DEUS. Então “O Livro dos Espíritos”, formando uma espiral aberta, característica dos sistemas não-fechados, abre-se temática e sistemicamente sobre os Espíritos e DEUS mesmo, pois quem mais além de DEUS poderia nos garantir “Esperanças e Consolações” após a nossa desencarnação?
Seu método, posto ser a Doutrina Espírita uma religião-filosófica, não poderia ser outro senão o filosófico porque, criticamente como a Filosofia, procura dar conta, isto é, hiperbolicamente, da totalidade existente, qual seja, o mundo com todo seu conteúdo. Quero dizer: conhecer todo fático existente. E a busca desse conhecimento total somente se dará pela evolução infinita do espírito, tendo em vista que, diferentemente das outras religiões, no Espiritismo o espírito não estaciona ao desencarnar e nem retrograda, antes evolui incessantemente para sua máxima aproximação da compreensão de DEUS e da Sua Criação.
Portanto as proposições contidas n’“O Livro dos Espíritos” constituem a interface dos temas da Filosofia tradicional e da Filosofia-teológica que tratam, sem exceção, dos maiores enigmas do pensamento humano: DEUS; espírito; matéria; ser; forma; universo; panteísmo; niilismo; fé x razão; corpo humano; vida; morte; alma; reencarnação; desencarnação; finalidade da encarnação; sobrevivência e estado do espírito após a desencarnação; evolução dos espíritos; pluralidade dos mundos habitados; progresso dos mundos; sonhos; profecias; milagres; corpo espiritual/perispírito; multiplicidade dos fenômenos espirituais; leis morais; lei de causa e efeito; lei de ação e reação; paixões; virtudes; geografia do além-túmulo; eternidade; imortalidade; Criação; etc. E tanto é uma filosofia que os Espíritos superiores o encabeçaram com o pré-título de “Filosofia Espiritualista” – o que o liga, num sentido amplo, a todas filosofias religiosas-espiritualistas, porém delas se diferencia pelas comunicações mediúnicas regulares, face inutilmente por elas recusadas – para somente a partir daí enunciar o seu título específico de “O Livro dos Espíritos”.
Todavia, se o Espiritismo é uma filosofia espiritualista, então em quê difere das demais filosofias religiosas existentes na medida em que todas também as são? Ele tem em comum com elas o fato de crer na existência do espírito, na sua sobrevivência, e na sua imortalidade; contudo a elas se opõe por outro fato mais do que relevante: se, de um lado, todas partem em comum do princípio central, que é DEUS, para, a partir d’Ele”, provar dedutivamente a existência do mundo e da alma, o Espiritismo, isoladamente e do lado oposto, parte doutro princípio central, que é o Espírito, para, indutivamente e apenas a partir da existência deste, provar a existência de DEUS como sendo a Causa Primeira de tudo o que existe aprioristicamente.