Quando nós, animais pensantes, dispusermos a nos utilizar de todas as nossas potencialidades anímicas, talvez seja tarde demais, porquanto verificaremos, espantadiços conosco mesmos, a incalculável quantidade de tempo perdido por não termos sabido aproveitá-lo.
Debruçados sobre o que convencionamos chamar de “o meu trabalho; os meus bens; os meus prazeres sensuais; a minha aposentadoria; e o meu descanso”, lamentaremos não nos havermos dado o tempo necessário para o desenvolvimento das nossas potencialidades morais, como o sentimento do bem, a se manifestarem nas virtudes da gentileza, da educação, da fraternidade, da alegria, do saber ouvir, da não-sofreguidão, da mansuetude, da paz, da compaixão, enfim, do amor. Com o acumular dos anos constataremos, desiludidos, não havermos contribuídos em nada para nós, pessoalmente falando, nem para o outro e nem para que o mundo se tornasse melhor.
Trabalhamos, é certo, porém, agora que os celeiros estão fartos, o que faremos? Dormiremos sobre eles ou viajaremos? Por que não empregarmos nosso restante tempo de vida ainda estuante para o cultivo do conhecimento moral, começando pelo conhecimento de nós mesmos? Por exemplo, já nos perguntamos
Talvez, é verdade, tais questões ainda não nos atormentam, mas, quando nos atormentarem, que não as deixemos de lado justamente por isso, “por nos atormentarem”, derivando a seguir para a inconsciência do álcool, das novelas, dos jogos de futebol, do empanturrar o estômago, das festividades com os amigos, das visitas incômodas, ... Todavia, não será em nenhuma dessas atividades desviantes daquelas questões tão claras e tão simples que encontraremos as suas respostas, notadamente a última, aquela respeitante ao seu porvir. Aliás, perguntemos: o porvir ou o nada? E se for “o nada”, então para que trabalharmos tanto? Para nada? E assim, desorientados, perdidos, frustrados, quanto ao nosso futuro existencial, correremos o risco de nos tornarmos seres materialistas e prejudicarmos o equilíbrio social que tal atitude acarreta em seus efeitos: a falta de uma moral individual e social. Quanta angústia!
Por que, durante todo esse tempo histórico, criaram religiões tão apavorantes e ainda tão ameaçadoras como a de um Céu inatingível devido às suas elevadíssimas exigências de atitudes morais puras, tornando assim impossível a existência dum homem ou mulher perfeitos capazes de nele habitar? Ou então como a de um Inferno tão fácil de nele se instalar, garantindo assim a existência de qualquer homem ou mulher imperfeitos, porém capazes de nele residir? E em ambos os casos, instalação definitiva! Quanta tragédia, quanta dor moral-espiritual!
Pergunta-se: haverá, neste mundo mesmo, alguma religião capaz de nos responder sobre para onde iremos – se é que “iremos” para algum lugar após a morte implacável –? Haverá alguma religião capaz de nos fornecer uma base certa – tão certa, por exemplo, quanto este escrito que lemos – com relação ao futuro da nossa alma? Como pudemos nos deixar iludir tanto com relação às existências “daqueles dois lugares”? Foram mais de 2.500 anos sem nenhuma prova, uma sequer, das existências deles! Ou será que ainda existe quem acredite na proposta de que “dormiremos até o Grande Dia do Juízo Final”, dia esse, por sinal, de data totalmente desconhecida?
Ora, se verdadeiramente tais locais existissem, então já tivemos tempo suficiente para conhecê-los! Mas como até hoje ninguém ainda retornou “de lá” – se é que podemos afirmar este “de lá” como se soubéssemos de alguém que, já tendo ido para lá, de lá nos trouxe alguma notícia quanto ao nosso futuro –, então como poderemos sair, afinal, da angústia cética quanto ao “para onde irei?”. Ser ou não ser? Existirei ou não existirei?” Mas, rebatem-nos: “De lá ninguém sai, uma vez entrado, eis porque não temos notícias!”, como se dizendo isso pudessem nos convencer! Mingau para crianças! Então só porque ninguém ainda veio de lá pode-se afirmar que “ninguém sai deles”? Admitamos: isso é explicar uma coisa da qual não se sabe por uma outra coisa da qual se sabe menos ainda. Nem preciso fazer algum mínimo esforço para afirmar serem balelas, pobreza de espírito, e temor do futuro, tais propostas. Consequentemente, não precisamos mais crer naqueles dois infernos: o primeiro, erroneamente dito “Céu”, por ser impossível nele entrar, e o segundo, dito “Inferno”, por isso ser facílimo.
Do que todas essas religiões tradicionais estão nos falando se desconhecem o do quê estão nos falando? Por que continuam a entupir os nossos ouvidos com mentiras e mais mentiras? Enlouqueceram? Esqueceram de que não possuímos outra faculdade senão a da razão raciocinante, única capaz de nos fazer encontrar aquela “base certa”? Onde poderemos encontrar a “base certa” correspondente à prova concreta da sobrevivência da alma? No Espiritismo, pois, através da mediunidade, põe em contato com o mundo dos chamados “vivos” os nossos amados que daqui partiram antes de nós. Sim, são os espíritos deles mesmos que vêm nos cantar a melodia das suas imortalidades: não “dormem”, vivem; não estão insconscientes, pensam; não estão ociosos no Céu, agem; não se encontram em nenhum “tacho fervente infernal”, caminham livres.
Os espíritos progridem em conhecimento, em moral, em virtude, e em amor. A evolução do ser pensante é permanente.
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