Em seu entendimento religioso, o que consta com relação à questão “DEUS perdoa?”. Receber o Seu perdão seria muito bom, sem dúvida, porquanto nos livraria das sanções espirituais futuras, todavia pense mais, para pensar melhor, acerca dela, a fim de não se equivocar por emitir uma resposta apressada.
Comecemos a refletir: DEUS não é o “Único Ser Perfeitíssimo”? Logo, sendo “O Único Ser Perfeitíssimo”, então é o Único Ser Absoluto, quero dizer, DEUS é o único ser no qual Sua essência – Seus atributos – se confunde com a Sua existência.
E ainda: por ser o “Único Ser Perfeitíssimo”, DEUS tem que ser o “Único Ser Perfeitamente Bom” – aliás, o próprio JESUS de Nazaré declarou isso apofanticamente(1), conforme consta em Mc 10,18: “Ninguém é bom senão só DEUS” –. Ora, se DEUS é o “Único Ser Perfeitamente Bom”, então jamais poderia se ofender, ficar zangado, e nos punir, porquanto a existência duma perfeição – a bondade, no caso – implica imediatamente na impossibilidade lógica da existência da imperfeição contrária –sentir-se ofendido, no caso –. Eis o motivo pelo qual DEUS não pode perdoar quaisquer espécies de pecados que nós, seres imperfeitos, possamos realizar.
Prossigamos: em seu entendimento religioso, o que consta com relação à questão “DEUS condena?”. Pelo mesmo motivo acima, o de que DEUS não pode se ofender, então DEUS não pode nos condenar. Quer saber as pelo menos duas razões que O impossibilitam dessas duas ações?
1ª) Se “Ele” é “O Ser Perfeitíssimo”, então também é verdade que “Ele” é “O Ser Onisciente” e, ao nos criar, já sabia que estaria criando criaturas falíveis, caso contrário não poderia ser “O Sumo Ser”; e
2º) Se ’“Ele” é “O Ser Perfeitíssimo”, então nunca conseguiremos entender como poderá perdoar a uns e condenar a outros ao mesmo tempo e na mesma relação, pois isso é impossível de ocorrer por ser impensável, porquanto a razão não pode conceber tal absurdo!
Quer saber o porquê do acima? Porque a faculdade da razão encontra-se absolutamente preenchida por princípio lógicos, naturais, todos extraídos a partir da sua própria natureza. Dentre esses avulta um que, pela sua proeminência, tornou-se supremo, portanto, impossível de ser contrariado e que, por isso mesmo, veio a ser o guia para todos os demais valores lógicos e para todo e qualquer raciocínio. Trata-se do seguinte: “ente algum pode ser e não ser ao mesmo tempo”, ou, em outras palavras, “A é A” porque “A” não pode ser “não-A”. Simples assim, natural assim, fácil assim. Duvida disso, duvida da sua razão? Então observe a natureza – que é tudo o que existe – e observe-se pensando sobre ela. Não poderá escapar de pensar conforme este princípio superior da razão. Disso decorre serem impensáveis o perdão e a condenação divinos, pois, por extensão de raciocínio, temos que considerar que DEUS existe para o nosso entendimento racional e não que nós existimos para o entendimento racional d’“Ele”. E mais, afinal: do acima deflui que DEUS é para nós o que nós entendemos que “Ele” seja, não é mesmo? E isso independentemente do que afirmam nossos padres, nossos pastores, nossos rabinos, nossos xeiques, e até mesmos nossos livros considerados “sagrados”, como rezam nossas religiões. A fé tem também que ser racional, senão estaremos correndo o risco de ocuparmos o mesmo lugar dos irracionais. Tal é a força inata da faculdade da razão, faculdade que, aliás, foi-nos dada por DEUS e que repudia tudo que não lhe preencha aqueles requisitos básico.
Vamos a um exemplo? Tomemos um balde com água: ela não pode estar quente e fria ao mesmo tempo e na mesma relação, pois não? Tomemos agora algo imaterial, existente apenas em nosso pensamento lógico, como “o maior” e o “menor”. Algo pode ser maior e menor ao mesmo tempo e na mesma relação? Não, não pode, é impossível por ser impensável.
Não, não se espante em descobrir somente agora o porquê causal de você ser um ser racional, pois, se este texto simples estiver lhe causando alguma dúvida até aqui, experimente então pensar que ambos os exemplos poderiam ser apresentados ao contrário. Poderiam? Conseguiu esta proeza? Por certo que não. Ora, tal impossibilidade é o que nos caracteriza, a todos, como seres racionais. E isso não dependeu de nós, porquanto foi O Criador “Quem” nos criou assim, dotados dessa razão lógica que, por nos ser comum, torna-se universal. Por isso, por ela, com ela, e nela, é que nos categorizamos no gênero “humano” e, sem ela, “humanos” não seríamos.
No Espiritismo pensamos exatamente assim desta maneira, natural, pois se torna extremamente dificultoso ao espírita pensar diferentemente sobre DEUS. A esse modo de “pensar natural” denominamos “filosofar”.
A esse respeito tenho um interessante caso a ser contado. Em outubro de 2008 o Espírito do filósofo-teólogo e padre francês LAMENNAIS (1782-1854) – cassado injustamente, em 1832, pelo Papa GREGÓRIO XVI, por haver defendido o ultramontanismo(2) e a liberdade religiosa – disse-me coloquialmente: “A Filosofia é fácil, ela está dentro de nós, ela é o que pensamos”. Certamente ele estava se referindo ao modo de pensar acima. Daí afirmarmos, compreendendo o grande sábio filósofo PARMÊNIDES de Eléia (515/440 aC), que “existir, pensar, e falar, são uma só e a mesma coisa”.
Filosofar é descobrir isso, o óbvio, e é o óbvio porque se encontra como tal na ordem natural do mundo. Eis porque o espírita não pode conceber as ideias de que DEUS possa perdoar e condenar, todavia a alma terá que expiar os seus delitos no porvir. “E como isso ocorre se não é por DEUS?”. Pela nossa consciência ética que se confunde, por sua vez, com a vontade moral e, esta, com a liberdade soberana. Sendo ética, então é na consciência que se encontram insculpidas as Leis Divinas já que, sendo soberanamente ética, então ela sabe que não pode enganar a si mesma, o que implica em que a consciência esteja permanentemente em contato com a Verdade, que é DEUS.
Passemos agora a outro assunto, o pertinente à sua alma: em seu entendimento religioso, o que consta com relação à questão “a alma é material ou imaterial?”.
Você sempre entendeu, ou melhor, aceitou, ser ela imaterial pois assim foi-lhe ensinado pelos seus mestres religiosos, não é verdade? Mas agora venho lhe afirmar o contrário, ser ela material. “Como assim, material?”, escuto-o a me perguntar neste preciso instante. Ela é material por causa do que se segue, preste atenção na sequência das afirmações racionais abaixo:
1º) Você concorda que o Universo contém tudo o que existe de material, inclusive você com as suas ideias?
2º) Você concorda que a sua alma - o ser pensante, porque o corpo carnal morre – existe em você?
Conclusão: então a sua alma também é um ser material.
Fui muito rápido nisto que parece ser um sofisma mas não é?
Desculpe-me, queria somente lhe demonstrar a materialidade da alma e tomei, para isso, como fundamento, a existência do Universo.
Tentarei doutro modo, porém ainda tomando o Universo como fundamento:
A) Se o Universo é tudo o que existe, então nada existe fora dele, sequer qualquer vestígio de espaço exterior, senão esse espaço é que seria o Universo por englobá-lo. Por que? Porque a Física Teórica já descobriu que o Universo está em expansão, logo, ele não tem limites nem fronteiras, não podendo então ser fechado nem estático, donde se conclui que o Universo cria o seu próprio espaço ao se expandir. O Universo não tem nem um “dentro” nem um “fora”! Ora, exatamente porque ao se expandir ele cria o seu próprio espaço, isso impossibilita que “a alma imaterial”, como você julga e defende que ela seja, tenha, por esta descoberta astromatemática, que estar “fora” do universo, lugar das coisas materiais. Ela se encontraria deslocada nele; aliás, por ser material, jamais poderia estar em espaço algum, pois se o que é imaterial não tem extensão, como poderia estar num Universo no mínimo tetradimensional, nele incluído a variável “tempo” além das outras três dimensões conhecidas? Não poderia.
B) Se subsumíssemos que o Universo seja fechado e estático – vamos agora eliminar a hipótese contrária por ela ser absurda, consoante a “lei da contradição” – então ele estará num lento e progressivo processo de desaparecimento, submetido, como teria que se encontrar, à 2ª Lei da Termodinâmica, ou à Lei da Entropia, ou à Lei da Irreversibilidade de Todo Sistema Isolado – outra lei divina –. Caso isso fosse possível, então a alma já estaria predeterminada ao desaparecimento e DEUS deixaria de ser DEUS porque deixaria de ser o Ser Todo-Poderoso porque algo por “Ele” criado teria desaparecido. Então perguntemos logo: o Universo está se desfazendo? Não? Então o Universo não é entrópico(3) e, por conseguinte, a alma tem que viver nele para sempre, o que a torna imortal.
E mais um último argumento: se a alma fosse imaterial, então como poderia estar aderida ao seu corpo material? Esqueceu-se de que para que algo esteja unido a outro algo torna-se necessário um elemento intermediador comum a ambos? Mas, como o corpo e a alma são contraditórios, pois um pensa e o outro não, então lhe pergunto: como podemos erguer o braço? E, no limite, como pode o homem existir? Sim, meu caro, se isso é um fenômeno ocorrente, então ele só é possível se aceitarmos que a alma seja material.
“Mas ela não sobrevive à morte do corpo físico? Logo, ela é imaterial!”, ainda ouço-o dizer-me. Sim, é claro que sobrevive, todavia conserva, e para todo sempre de sua imortalidade, o elemento intermediário material, invisível aos nossos olhos do corpo denso, o períspirito(4), ou “corpo espiritual”, do qual nos falou PAULO de Tarso em 1Co 15, 40 e 44. Vá lá conferir. Esse perispírito é o seu elemento material adequado à sua vivência no mundo espiritual e é constituído de matéria quintessenciada, sendo mesmo o elemento intermediário entre a alma e o corpo físico mais denso, qual seja, este corpo atual. Eis porque a alma tem que ser material.
Entenda agora porque o espírita crê em DEUS e na alma, porém, como dizia o célebre filósofo SPINOZA (1632-1677), “por outros motivos”.
NOTAS DO SITE:
(1) Apofanticamente: Diz-se de qualquer enunciado verbal passível de ser considerado verdadeiro ou falso, em função de descrever corretamente ou não o mundo real.
(2) Ultramontanismo: Doutrina que defende a posição tradicional da Igreja católica italiana de sustentar a tese de infabilidade do papa.
(3) Entrópico: Relativo à entropia; medida da quantidade de desordem de um sistema.
(4) Períspirito: Envoltório semi-material. Nos encarnados, serve de laço ou intermediário entre o espírito e a matéria. Termo criado por Allan Kardec, pela inexistência de palavra análoga – O Livro dos Médiuns – Cap. V nº 98.