José Mackário Filho



Dar o Peixe ou Ensinar a Pescar?

“Ensina a criança no caminho em que deve seguir, e mesmo com o passar dos anos ela não se desviará dele” (Provérbios, 22, 6).

Proliferam-se no Brasil, uma quantidade imensurável de ONGs, além das entidades oficiais, dedicadas aos direitos humanos, o que, na teoria, não permitiriam encontrarmos mendigos pelas ruas; famintos, doentes desamparados, ou necessitados de todos os matizes; famílias desestruturadas e nem viciados sem encaminhamentos. Existem ONGs para tudo e para todos os gostos.

A contrapartida, no entanto, é que basta olharmos ao nosso redor e nos depararemos com uma realidade assustadora: irmãos desafortunados perambulando ao léu pelas ruas sem nenhuma perspectiva.

Existem muitas ONGs sérias e honradas que se dedicam com extremo zelo ao amparo a que se propõem; mas algo não se encaixa ainda: Será que falta mais quantidade ou mais qualidade?

De quem é a culpa? Essa é a pergunta mais frequente, usada muitas vezes, como muletas para passar-se o bastão da responsabilidade adiante. Será culpa do governo? Mas, quem é o governo? Quem o elegeu? A culpa é da própria vítima? Ou aquela célebre pergunta: Quem mandou colocar filhos no mundo, se não tem como mantê-los?

Lembremos do ensinamento do Mestre: “Fazer o bem sem olhar a quem!” Portanto, a responsabilidade é de todos nós: ajudemos antes, questionemos depois. Saco vazio não para de pé.

A doutrina da Reencarnação explica esta aparente discrepância, entre os filhos de Deus: se ontem abusou-se da fartura, hoje ressente-se até do básico para aprender a valorizar as conquistas, tanto materiais, mas principalmente, as morais. Não há vítimas inocentes: todos colhem o que semearam em algum momento do passado.

Mas, isso não é motivo para cruzarmos os braços. Aqueles que estão ou passam pela nossa vida, não são obras do acaso, visto que o acaso não existe. São oportunidades que a Providência Divina nos concede para estendermos a mão amiga àqueles que estão à nossa retaguarda, assim como almejamos o auxílio daqueles que estão à nossa dianteira.

O grande desafio é saber como ajudar. Não basta ter boa vontade; também é primordial saber como proceder! Neste particular, Divaldo Pereira Franco faz uma comparação notável: imaginemos dez pessoas numa cozinha, com extrema boa vontade mas, nenhum deles, sabe absolutamente nada de culinária: tudo pode acontecer, menos uma refeição palatável.

E o que vemos é o paternalismo exacerbado, em forma de esmolas. Muitas vezes, com muito boa vontade, mas sem um norteamento adequado.

Luiz Gonzaga (Gonzagão) em uma de suas canções faz a seguinte observação: A esmola envergonha ou vicia o cidadão.

Em o Livro dos Espíritos, questão 888 e 888a, encontra-se a colocação de Vicente de Paulo, sobre a esmola: O homem reduzido a pedir esmola se degrada moral e fisicamente: ele se embrutece. Numa sociedade baseada na lei de Deus e na justiça, deve-se prover a vida do fraco sem humilhação e garantir a existência daqueles que não podem trabalhar sem deixar sua vida sujeita ao acaso e à boa vontade. Não é a esmola que é reprovável, é muitas vezes a maneira como é dada. O homem de bem que compreende a caridade, como Jesus, vai até o infeliz sem esperar que ele estenda a mão.

Na questão 889 Vicente de Paulo arremata: –Se uma boa educação moral lhes ensinasse a praticar a lei de Deus, não cairiam nos excessos que causam sua perdição; é daí, especialmente, que depende o melhoramento de vosso globo.

Recordemos que a Lei de DEUS está escrita na consciência (LE 621).

Doa-se o peixe, ao invés de ensinar a pescar. Num primeiro momento, sacia-se a fome, mas a necessidade volta, como num círculo vicioso. É preciso cortar esse elo cruel de encarceramento humano, ensinando ao cidadão o caminho das pedras; o direito de caminhar com as próprias forças.

O maior auxílio que se pode dar a um cidadão é mostrar-lhe que é capaz, auxiliando-o a liberar o seu potencial interior, pois que: Deus não coloca fardo pesado em ombros fracos.

Na verdade, Deus permite o parcelamento dos débitos contraídos à vista, diluindo-os pelo tempo necessário, de acordo com o grau de entendimento e comprometimento de cada um com o resgate; pois não basta o arrependimento simples e puro, bem como o pedido de desculpas ou de perdão: a reparação é necessária.

A lei de Deus é sempre educativa e nunca punitiva.

O grande sofisma da vida é esquecer-se de aliar deveres e direitos. Note-se o exemplo do Mestre dos Mestres: “Meu pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Jesus – João, 5, 17).

Em nome dos diretos, bloqueiam-se estradas, invadem-se órgãos e praças públicas, desrespeitam-se a carta magna, numa questão pétrea: “O direito de ir e vir de todo o cidadão”; e ainda quebrando-se outra regra fundamental: “O direito de um termina quando começa o direito do próximo!”.

A ociosidade é uma falta grave perante as Leis Divinas. Ninguém pode se tornar um peso morto para a sociedade, em sã consciência, sem arcar com futuras consequências. Na ociosidade, “peca-se” pela strong<->omissão. É o pecado dito culposo (sem intenção de praticar), o que equivale ao ensinamento de Jesus: “Perfilai pela porta estreita, porque larga é a porta da perdição” (ESE XVII-3).

Um exemplo de omissão consta na parábola do bom Samaritano, quando dois religiosos, simplesmente ignoraram a presença daquele moribundo. Para as leis civis, tanto daquela época como da atual, simplesmente não caracterizariam se quer como falta leve, mas Jesus a utilizou como exemplo da porta larga, (a omissão) e da porta estreita (amor ao próximo) na ação daquele samaritano, tido e havido como pagão e infiel, no julgamento dos hipócritas, com os quais, o Mestre combateu o bom combate, nos dizeres de Paulo de Tarso. Qual o primeiro de todos os direitos naturais do homem? (LE q. 880).

“O DE VIVER. Por isso é que ninguém tem o direito de atentar contra a vida de seu semelhante, nem de fazer o que quer que possa comprometer-lhe a existência corporal”.

Uma vez que se vive, têm-se direitos e deveres.

O homem que cumpre o seu dever ama a Deus mais do que as criaturas e ama as criaturas mais do que a si mesmo. O dever é o mais belo laurel da razão; descende desta como de sua mãe, o filho. O homem tem de amar o dever, não porque preserve dos males, mas porque confere à alma o vigor necessário ao seu desenvolvimento (ESE XVII-7).

Para reflexão:

“Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o nazareno, levanta-te e anda” (Pedro).

Muita paz, com Jesus!

Mackário José
mackario@ibest.com.br

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