Mackário José



Na hora do testemunho

16-09-2011

“Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?” – “Podemos.” Responderam João e Tiago, filhos de Zebedeu, posteriormente discípulos de Jesus. MT, 20, 9.

Nos primórdios do Cristianismo, os cristãos eram atirados nas arenas dos circos romanos e devorados por feras famintas, num macabro espetáculo para deleite de alguns “privilegiados espectadores”.

Aqueles mártires eram coagidos e marchavam cantando e reafirmando a fé no mestre de Nazaré. Hoje não precisamos enfrentar os leões famintos; os testemunhos são outros: a perseverança na fé raciocinada e nos bons exemplos. As feras são outras: a calúnia, a descrença, o materialismo exacerbado, a inversão de valores, o ter ao invés do ser, o profissionalismo religioso, a banalização do sexo, o levar vantagem em tudo, o preconceito, etc.

O diferencial é que podemos evitar as feras atuais; temos o livre arbítrio e a capacidade de escolha entre o bem e o mal, pois que a lei de Deus está escrita na consciência de cada um. LE. Q. 621.

As arenas de hoje se encontram no lar, na rua, no trabalho, no templo, no lazer, no dia-a-dia, onde poderemos exercer esse livre arbítrio, seja como vítimas, feras, espectadores ou instrumentos da paz, como Francisco de Assis.

O grande mérito é não nos transformarmos de vítimas do passado, nos algozes ou nas feras do presente. O trânsito é um grande laboratório: quantos não transformam seus veículos em garras e dentes afiados das feras de outrora? Uma antiga propaganda governamental nos trazia um chamamento sintomático: “Não faça do seu carro uma arma; a vítima poderá ser você!” Nada tão atual e tão verdadeiro!

Quantos não transformam o lar, o trabalho e até o templo religioso, em verdadeiras arenas dos circos romanos?

O cálice e o batismo, referidos por Jesus, significam os esforços que devemos despender para a transformação do homem velho, cheio de vícios, dogmas e rituais, por um homem novo, renascido e alicerçado numa fé sólida e dinâmica consubstanciada no strong>“Amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.

Esse homem novo renasce necessariamente, despindo-se dos padrões há muito estabelecidos pela lei dos mais fortes, que oprime os fracos na famosa lei de Talião: “Olho por olho, dente por dente”, em prejuízo da LEI DE JUSTIÇA, AMOR E CARIDADE, uma vez que prevalece o “Quem pode mais chora menos”.

Os primeiros indícios da lei de talião foram encontrados no código de Hamurabi, em 1730 a.C., na Babilônia e consiste na rigorosa reciprocidade do crime e da pena, ou mais apropriadamente, chamada retaliação.

Noutro ensinamento, disse Jesus: Não penseis que eu tenha vindo destruir a lei ou os profetas; não vim destruí-los, mas dar-lhes cumprimento... O Céu e a Terra não passarão, sem que tudo o que se ache na lei esteja perfeitamente cumprido, enquanto reste um único jota e um único ponto ESE, Cap. I – 1 e Mt., 5, 17 e 18. O Mestre se referia às Leis Divinas contidas no decálogo revelado por Moisés, quase dois mil anos antes: Honrar pai e mãe; Não matar; Não cometer adultério; Não roubar; Não prestar falso testemunho; Não desejar a mulher do próximo; Não cobiçar a casa, o servo, a serva, o boi, o asno, ou quaisquer coisas do próximo, etc., entremeadas com leis civis necessárias para um povo ainda engatinhando no quesito moralidade.

Se essas leis tivessem sido observadas, a terra, com certeza, já há muito, teria dado um salto na escala de evolução dos mundos: hoje ainda patinamos em um mundo de provas e expiações, onde o mal prevalece.

Porém, o egoísmo generalizado ignorou e deturpou todas as exortações advindas do alto para a regeneração humana, popularizando a malfadada lei de Talião em completo desrespeito aos desígnios celestes.

Do egoísmo deriva todo o malLE. Q. 913).

O Mestre afirma não destruir a Lei, pois esta estava enraizada na cultura daquele povo e interpretada segundo suas convicções e não podia simplesmente ser abolida: a resistência seria enorme e os resultados não seriam alcançados. Então, sutil e paulatinamente, o mestre a substitui pelo maior mandamento: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo, como a ti mesmo”. São parâmetros infalíveis, pois bem sabemos que o que não é bom para nós, não poderá ser bom para os semelhantes.

Assim, incutia na consciência daquele povo, a lei de JUSTIÇA, AMOR E CARIDADE. Como a natureza não dá saltos, Jesus então promete: "Se me amais, guardai os meus mandamentos; e eu rogarei a meu Pai e ele vos enviará um outro Consolador, a fim de que fique eternamente convosco: - O Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque o não vê e absolutamente o não conhece. Mas, quanto a vós, conhecê-lo-eis, porque ficará convosco e estará em vós. - Porém, o Consolador, que é o Santo Espírito, que meu Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará recordar tudo o que vos tenho dito." ESSE, Cap. VI – 3 e Jo, 14, 15-17 e 26.

Os resquícios da Lei de Talião ainda assombram nos dias atuais, como nos famosos jargões: “Não tenho sangue de baratas!” ou “não levo desaforos para casa!” Quem assim pensa, sugere que o Mestre Jesus tinha sangue de baratas, afinal, além de não reagir às cruéis agressões sofridas, ainda nos recomendou “Oferecer a outra face!”

Então, será preciso estender o pescoço à sanha assassina do algoz?

Relembremos Paulo de Tarso: “A letra mata e o espírito vivifica” 2 Cor. 3, 6. É preciso entender o teor dos ensinamentos de Jesus para não cairmos nos extremos da pieguice e do fanatismo religiosos. A fé cega gera o fanatismo e neste particular, Allan Kardec nos dá a definição de fé raciocinada:

"Fé inabalável só é a que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da Humanidade” ESE.

Disse também o Mestre: “Sede mansos como as pombas e prudentes como as serpentes”Mt, 10, 16; Faça ao próximo o que gostaria que vos fosse feito” “Orai e vigiai para cair em tentação!” Dessa forma, sequer nos sentiríamos ofendidos, caso tomássemos estas leis como regra de conduta.

Por que, no mundo, os maus têm geralmente maior influência sobre os bons? – É pela fraqueza dos bons; os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos; quando estes últimos quiserem, preponderarão. LE 932.

Numa autoanálise, cabe-nos perguntar: Somos bons? Se sim, caberá outro questionamento: Quando deixaremos a timidez de lado e decidiremos preponderar? Só depende de nós.

A timidez é fruto do orgulho, do medo de nos expormos; do medo da ironia e do sarcasmo dos outros. Significa que não somos ainda convictos daquilo que falamos.

Quantos não assumem a condição de espíritas, alegando que é muita responsabilidade, como se o espírita já fosse um espírito puro? Quantos não se mantêm com os pés em canoas diferentes, numa e noutra religião? Quantos não frequentam uma casa espírita, mas levam seus filhos para o catecismo católico, mesmo a casa oferecendo a Evangelização Infantil? Quantos casamentos com todos os rituais católicos? Exceção feita em consideração, caso um dos cônjuges pertença àquela religião. São os famosos “espiritólicos”.

De uma maneira geral, ainda nos prendemos aos dogmas, aos rituais, as aparências exteriores, às tradições. Para ser espírita é preciso romper barreiras, quebrar paradigmas e isso é o verdadeiro testemunho.

O Espiritismo não veio destruir a lei cristã, mas dar-lhe execução. Nada ensina em contrário ao que ensinou o Cristo; mas, desenvolve, completa e explica, em termos claros e para toda gente, o que foi dito sob forma alegórica. Vem cumprir, nos tempos preditos, o que o Cristo anunciou e preparar a realização das coisas futuras. É obra do Cristo, que preside, conforme igualmente o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o reino de Deus na Terra ESE Cap. I – 7.

Pois que vos dizeis espíritas, sede-o. Olvidai o mal que vos hajam feito e não penseis senão numa coisa: no bem que podeis fazer. ESE, Cap. X – 14

Muita paz, com Jesus!


Mackário José
mackario@ibest.com.br

Voltar para a página anterior / Voltar para a página principal