Kratus Ranieri



Será o Espiritismo uma ciência mesmo?

20-01-2011

No centro espírita que frequento, Grupo da Fraternidade Irmão Altino, fazemos semanalmente um trabalho de leitura e reflexão do Livro dos Espíritos. Em um desses trabalhos, os presentes trocavam informações e apresentavam suas interpretações sobre algumas questões do livro envolvendo tópicos da Física, quando um companheiro presente, talvez ainda novo no estudo da Doutrina, despertando de suas cogitações, perguntou de súbito: - Afinal, o que é o Espiritismo? É ciência? De imediato outro companheiro respondeu: - É! Seguido quase que simultaneamente por outro: - Espiritismo é uma revelação... A terceira revelação! Seguiu-se assim uma calorosa e instrutiva discussão que me motivou a escrever esse pequeno artigo, que não pretende esgotar o tema, mas apenas contribuir para clarear um pouco esse assunto, que ainda é motivo de saudáveis questionamentos por parte de muitos espíritas e simpatizantes.

Será o Espiritismo uma ciência mesmo?

É comum no meio espírita, quase um dogma, a idéia da tríplice natureza da Doutrina como, ciência, filosofia e religião. Os mais antigos, no estudo da questão, costumam passar esse conhecimento como uma informação preliminar para os mais novos em suas primeiras incursões aos centros espíritas. Mas, a afirmativa por si só pouco explica, pois o entendimento dos termos ciência, filosofia e religião difere para cada um. Mesmo entre os filósofos da ciência, o consenso é difícil. Na época de Kardec, a concepção do que seria ciência era um pouco diferente da concepção de hoje, portanto, o caminho para esclarecer a questão é procurar uma definição do que é ciência, na sua concepção moderna, e depois verificarmos se o espiritismo se enquadra nessa definição atual.

O que chamamos ciência moderna está fragmentada em diferentes disciplinas. Sendo que cada disciplina tem sua própria história e desenvolvimento. Assim existem ciências muito antigas, cuja origem se perde no pó da história, como certas áreas da matemática e ciências bem mais recentes, como a informática. Dentro desse período de tempo, muitas outras áreas do conhecimento tiveram seu início. Existem também, disciplinas cujas comunidades lutam pelo seu reconhecimento como ciência. É o caso da homeopatia e da acupuntura.

O exame da história do desenvolvimento de cada ciência mostra que sempre há um momento de cisão com antigos conceitos ou pré conceitos, distinguindo-se com clareza uma linha divisória. Isso aconteceu com o Espíritismo, que se destacou de diversas correntes ocultistas e espiritualistas mileanares, apresentando teorias e concepções simples para explicar determinados tipos de fenômenos (fenômenos mediúnicos), desenvolvendo para isso uma terminologia própria e uma série de conceitos sobre a vida.

Pode-se, a princípio, atribuir à ciência características que a distingue de outras representações do pensamento, como a ideologia, a cultura ou a poesia. Primeiro, a ciência tem conceitos próprios derivados da experiência; segundo, tem um rigor de raciocínio ou coerência. Mas, isso não é suficiente, pois muitas correntes ocultistas derivam seus conceitos da experiência, e a Teologia pode ser considerada como a própria lógica aplicada.

Segundo Roland Omnés em Filosofia da Ciência Contemporânea, a ciência é caracterizada e reconhecida por um método que ele chama de método de quatro tempos, ou seja, a ciência emprega quatro atividades diferentes envolvendo a experiência e o pensamento, que podem corresponder a quatro períodos da história de seu desenvolvimento. Os quatro tempos são: empirismo, conceitualização, elaboração e verificação. Isso siginifica que qualquer área do conhecimento que pretenda ser reconhecida como ciência deverá ter passado por essas quatro etapas. Esse será o método de investigação aplicado aqui.

Será o Espiritismo uma ciência mesmo?

A história da dinâmica clássica é um bom exemplo. A fase empírica ou exploratória é a fase de coleta de dados, uma catalogação de experiências que as vezes pode gerar algumas regras empíricas. Vemos aí o período de Tycho Brahé e de Galileo, bem como as regras empíricas de Kepler, chamadas por alguns de leis. Nesse período da pesquisa espírita encontramos os grandes experimentadores da era inicial como, Bozzano, Geley, Aksakof, Flammarion, William Crooks, Coronel Alber de Rochas e muitos outros. Nessa época, havia uma grande preocupação em eliminar hipóteses como a fraude ou a hipótese anímica, mas foi uma fase de grande coleta de dados e que se superpõe a próxima etapa, como veremos a seguir.

A segunda etapa é a concepção, na qual princípios são estabelecidos, sendo essa fase de caráter mais intuitivo do que racional. Newton passou por isso ao apurar os conceitos de massa, força e posição e inventar a aceleração. Como já mencionado, essa fase, no desenvolvimento da Doutrina Espírita, está emaranhada com a precedente, pois a medida que os fenômenos eram catalogados e classificados, e as hipóteses animica e fraude eram descartadas, a hipótese da intervenção de inteligências não corpóreas (pelo menos no sentido em que entendemos isso) era reforçada, e os prímcípios básicos da doutrina foram lançados.

A terceira etapa é da elaboração, que consiste em determinar as consequências dos principios estabelecidos pelo uso da lógica. É uma fase laboriosa e racional, embora possa apresentar lacunas. Na Física, essa fase é caracterizada por muitos cálculos. Nem sempre esse é o caso, como na biologia, por exemplo, na qual o uso da lógica associada ao senso comum produz a elaboração da ciência. A fase de elaboração no Espiritismo, ocorreu com o lançamento do Livro dos Espíritos. E aqui há um diferença com as outras ciências, pois essa elaboração foi feita por espíritos, com uma grande participação de Kardec, como organizador inspirado da obra. Em outras palavras, temos aqui um caráter de revelação da Doutrina.

Finalmente tudo deverá ser verificado. É a fase na qual o modelo (a teoria ou o princípio), que ainda é apenas uma hipótese, deverá ser exposto e poderá ser refutado. É nesse ponto que a ciência se aproxima da forma como a percebemos, ao testar exaustivamente os modelos criados anteriormente. É também nesse momento que os espíritas devem ser gratos a todos os seus adversários, a todos os céticos e aos seus difamadores.

O Espiritismo, tanto no que diz respeito ao fenômeno, como no aspecto doutrinário de coerência e lógica, passou no seus aproximados 170 de existência anos por intensas e profundas análises, inquirições e inquisições, feitas por pesquisadores isentos como também por adversários ferrenhos. Contudo, apesar de todos os esforços, até hoje nenhuma inconsistência na doutrina foi encontrada, mostrando sua solidez.

O Espiritismo na sua elaboração passou pelo o que se poderia chamar o método de Kardec – o crivo da razão. Método que todo espírita deve aplicar como principío. Entretanto, ainda hoje, lamentavelmente, muitos iniciantes são conduzidos para o perigoso campo do misticismo, sendo ludibriados por entidades encarnadas e desencarnadas e levados a interpretações errôneas e até ao desencanto e abandono da doutrina. Portanto com base na discussão anterior, pela aplicação do método dos quatro tempos podemos afirmar sem receio que o Espiritismo é uma ciência no seu sentido moderno. Uma ciência elaborada com a ajuda de nossos irmão desencarnados ...


Kratus Ranieri
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