Vladimir Polízio



Casa em reforma

30-03-2013

Com este título sugestivo Emmanuel discorre, através da mediunidade de Chico Xavier, sobre a realidade da Terra, mundo considerado como de Provas e Expiações. Logo, não obstante as belezas e as benesses naturais que a vida oferece a todos, não se poderia encontrar nele a permanente paz que os bondosos e bem intencionados corações almejam.

A mensagem refere-se às “Calamidades, flagelos, conflitos, lutas, provas!...”, lembrando que “A Terra assemelha-se, hoje, à casa em reforma”, com “Tudo ou quase tudo aparentemente desajustado para a justa rearmonização”(1).

É natural que se espere com ansiedade as mudanças anunciadas, como é natural, também, que se pretenda constatar, ainda na existência presente, essas alterações tão aguardadas.

Convém lembrar, contudo, a alta importância dada ao progresso da Natureza, uma vez que os próprios Espíritos lembram ser este lento e gradual, sem sobressaltos.

Já em 1859 Allan Kardec considerava, de acordo com as informações que lhe vinham do Mundo Invisível, as condições da Terra:

“Pois bem: consideremos-a Terra como um arrabalde, um hospital, uma penitenciária, um pantanal, porque ela é tudo isso a um só tempo, e compreenderemos porque as suas aflições sobrepujam os prazeres. Porque não se enviam aos hospitais as pessoas sadias, nem às casas de correção os que não praticaram crimes, e nem os hospitais, nem as casas de correção, são lugares de delícias”(2).

Emmanuel lembra-nos, ainda, que “O que existe presentemente na Terra é o chamamento cada vez mais vivo ao testemunho individual de compreensão e aperfeiçoamento, com múltiplas oportunidades de trabalho em louvor de nossa própria renovação”(3), ao que acrescentaríamos que a hora da verdade é qualquer hora, já que os ajustes podem ser levados a cabo a qualquer instante. Da mesma forma pode ser encarado o que muitos insistem em chamar de juízo final ou julgamento final, uma vez que todos nós, espíritos que somos, passaremos por essa severa avaliação a cada final de existência ao retornar ao mundo espiritual. Esse é o sentido figurado para essa expressão vulgar, prestação de contas reservada a todos os que deixam o convívio terreno, e que não está relacionado à extinção do planeta, mas sim à extinção da força vital do corpo físico. Quando a situação moral começa a resvalar para níveis pesados de sustentação, há que se preocupar mais com as questões relacionadas ao campo da compreensão e aperfeiçoamento dos valores edificantes da vida.

Outro abnegado trabalhador da seara espiritual, Francisco Leite de Bittencourt Sampaio (1834-1895), espírita de elevada envergadura moral, numa de suas comunicações mediúnicas com Chico Xavier, assim se expressou:

“Não ignorais que a civilização de hoje é um grande barco sob a tempestade... Mas, enquanto mastros tombam oscilantes e estalam vigas mestras, aos gritos da equipagem desarvorada, ante a metralha que incendeia a noite moral do mundo, Cristo está no leme!”(4).

A Terra não é o primeiro dos mundos morais, já “... que pertence à categoria dos mundos de expiações e provas e é por isso que nela o homem está exposto ao tantas misérias” (5). Sabemos que o progresso é válido tanto para a humanidade como para os próprios ambientes e, sendo assim, a melhoria na Terra terá que acontecer, mas, cremos, não com a velocidade que todos gostaríamos.

Apenas por que nos achamos em trânsito atualmente no Planeta, entendemos que tudo deva acontecer enquanto por aqui estivermos. E até poderá ser possível que isso aconteça, não como se imagina mas no decorrer de inúmeras outras encarnações, o que equivale dizer que muitos séculos ainda transcorrerão para que a Terra comece a dar mostras de mudanças, não climáticas ou geográficas, mas morais.

Santo Agostinho, um dos expoentes do Espiritismo, disse:

“Ao mesmo tempo que os seres vivos progridem moralmente, os mundos que eles habitam progridem materialmente. (...) ...mas em graus insensíveis para cada geração... (...) A Terra, seguindo essa lei, esteve material e moralmente num estado inferior ao de hoje... (...) Ela chegou a um de seus períodos de transformação e vai passar de mundo expiatório a mundo regenerador” (6).

Vemos nessas afirmativas e observações que a vida terrena é de peregrinação em todos os tempos, campos e épocas.

Há os que defendem a teoria de que a Terra tem o tempo algo em torno de 10 mil anos. Mas a Ciência se manifestou comprovando, através de experiências com o Carbono-14, que possibilita a datação radiométrica, de que a Terra conta cerca de 5 bilhões de anos.

A partir de cada criação, a tendência é a busca do aprimoramento progressivo. Uma criança, por exemplo, a contar do nascimento, caminha para a maturidade, e, como ela, tudo o que está na Terra, aliás, ela própria encontra-se nesse processo evolutivo, desde a sua criação pelo Senhor da Vida e dos Mundos.

Nada a objetar quanto ao progresso, o que é lógico, natural e necessário, considerando a bondade Divina.

Entendemos que tudo isso é possível mas, como já foi dito, ocorre “em graus insensíveis para cada geração”, compreendendo assim a coerência com as afirmativas dos irmãos maiores do Mundo Invisível.

Enfim, envolvidos pelos sentimentos de amor à vida e de respeito ao Criador, vamos abraçar a convocação da Madre baiana Joana Angélica de Jesus (Joanna de Ângelis - 1822):

“A vanguarda do trabalho é uma arena de que não nos cabe fugir. Defendamos em suas linhas a nossa posição de serviço, amando e agindo, imaginando e elaborando para o bem, e o Senhor, por certo, nos fará Divina Mercê” (7).


(1) - Chico Xavier Pede Licença, de Espíritos diversos, com Chico Xavier e Herculano Pires – nº 27 – Ed. GEEM.

(2) - O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec – Cap. III, nº 7 Ed. LAKE.

(3) - Chico Xavier Pede Licença, de Espíritos diversos, com Chico Xavier e Herculano Pires – nº 27 – Ed. GEEM.

(4) - Instruções psicofônicas, de Espíritos diversos, com Chico Xavier – nº 64 – Ed. FEB.

(5) - O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec – Cap. III, nº 4 – Ed. LAKE.

(6) - O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec – Cap. III, nº 19 – Ed. LAKE.

(7) - Falando à Terra, de Espíritos diversos, por Chico Xavier – Ed. FEB.



Vladimir Polízio
polizio@terra.com.br

Voltar para a página anterior / Voltar para a página principal