Vladimir Polízio



Meu pai, Guimarães Rosa, previu a própria morte

17-01-2015
guimaraes

Romancista ligada ao pai, ninguém melhor que Vilma Guimarães Rosa é capaz de analisar a personalidade fascinante do grande escritor.


“– Onde ele buscava a fonte de sua inspiração?

– Dizia-me que a inspiração era um estado de transe. Papai gostava de ouvir as estórias que eu ainda não tinha escrito. Às vezes, eu as inventava na hora, para agradá-lo. Quando saía um livro seu, nós combinávamos um encontro, e só se falava naquele livro. Ele me pedia para ler trechos em voz alta. Fazia comentários. E quando eu perguntava de onde saíra a idéia daquele livro, ele repetia o que sempre dizia para o amigo José Olympio: ‘Só escrevo atuado’(2).


– Ele era místico?

– Profundamente. Era um mágico! Falávamos horas sobre religião. Como ele, sou também mística. Então, nesses momentos, escutava-o, extasiada. Dizia coisas lindas, inspiradas pela fé, pela filosofia essencialmente oriental e por um espiritualismo puro, autêntico, que me comoviam. Conversávamos tanto sobre Deus, que Este se tornava quase tangível, quase concreto à nossa frente...


– Ele pressentiu a morte após a posse na Academia?

– Ele sabia que ia morrer. Quando foi eleito na vaga de seu grande amigo João Neves da Fontoura(3) adiou a posse. Foram quatro anos de espera. Supersticioso, papai temia algo que alguém lhe revelara anos antes. E até hoje eu não descobri o que foi nem quem foi. Chegou mesmo a avisar ao nosso querido Austregésilo de Athayde(4) que tomou as precauções, caso ele se sentisse mal durante a cerimônia. Para alguns poucos amigos íntimos, ele confidenciava: “Se tomar posse, eu morro”.


– Pessoalmente, você sentiu que seu pai morreria?

– Papai acabou seu discurso: ‘As pessoas não morrem, ficam encantadas’ – em lágrimas. Nunca havia visto papai chorar em público. Ele me havia pedido para defendê-lo contra os fotógrafos e as pessoas que o envolvessem com exageros. Na véspera, ele me disse: ‘Que pena a posse na Academia não ser como um jogo de futebol... Quando acaba, os jogadores estão a salvo, entram no buraco e somem...’. E de fato morreu logo depois.


– E a grande lição que lhe deixou?

– Uma profunda lição de amor e uma tremenda lição de fé. Comparo sua lição de vida à Oração de São Francisco de Assis. A mesma nobreza e humildade. Papai ensinou-me a conceder o perdão, a distribuir alegria e a esperança para tornar os semelhantes mais felizes. Iluminar, com um sorriso, com uma palavra de bondade, as pessoas em dificuldades. Generosa e naturalmente, nada esperando em troca. Foi um difícil aprendizado.”


NOTAS DE LIMIAR ESPÍRITA:

(1) João Guimarães Rosa – Nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 27-6-1908 e desencarnou em 19-11-1967, no Rio de Janeiro-RJ. Figura entre os mais importantes escritores brasileiros. Foi médico e diplomata. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 06 de agosto de 1963, tomou posse somente quatro após, em 16-11-1967, quinta-feira, onde passou mal e três dias depois, no domingo, dia 19, retornou à pátria eterna. E concluindo suas elogiosas palavras sobre o Imortal João Neves da Fontoura, a quem sucedia, afirmou: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”.

(2) Atuado: Sujeito à influência de forças ou energias desconhecidas, que levam a atitudes fora do padrão e do comportamento comum.

(3) Belarmino Maria Austregésilo Augusto de Athayde (1898-1993), ingressou na Academia Brasileira de Letra em 1951 e foi seu presidente de 1958 a 1993, ano de sua morte.

(4) João Neves da Fontoura, nasceu em Cachoeira-RS e desencarnou em Rio de Janeiro-RJ (1887-1963). Ingressou na Academia Brasileira de Letras em 1936.


Obs: Esta matéria foi publicada na revista Manchete de 27-2-1982 e republicada no Anuário Espírita-IDE de Araras-SP, em 1983.




Vladimir Polízio
polizio@terra.com.br

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