Às 20 horas do dia 26 de setembro de 1967, nascia o GEEM.
E foi aqui mesmo, neste local em que me encontro: a sua sede social, situada na Avenida Humberto de Alencar Castelo Branco, à época denominada Avenida Jurubatuba.
Desdobro, enquanto redijo este texto, as páginas do documento original da Ata de sua fundação, amarelecidas pela implacável ação do tempo. Presidiu à reunião Rolando Mário Ramacciotti.
Ele me concedeu a palavra na Assembleia daquela memorável noite, pedindo-me para expor aos associados os objetivos essenciais da novel entidade:
— Divulgação da doutrina espírita, por meio da obra de Francisco Cândido Xavier, inspirada nos ensinamentos de Kardec.
Cinco décadas transcorreram... Rolando e Chico Xavier nos deixaram, buscando novas tarefas na Vida Maior. Rolando em 1979, e Chico em 2002, no dealbar do milênio em que vivemos.
Com os olhos voltados para a Ata da Assembleia, meditando, envolve-me imensa saudade. Saudade desses dois amigos tão caros e de tudo o que foi feito a cada dia do meio século, que ora comemoramos, no intuito de divulgar as lições do Mestre, que se perpetuam na eternidade.
Abraçam-me as lembranças de tantas recordações das visitas constantes ao Chico do nosso querido pai de oito filhos, extraordinário empreendedor, com sua visão ampla e privilegiada do futuro.
A cada dois ou três meses, estava ele em Pedro Leopoldo ou Uberaba e, em todas as viagens, invariavelmente retornava com uma longa mensagem de Batuíra, incentivando e orientando-o quanto ao trabalho que executava sem cessar.
Em 1969, após receber mais uma carta de Batuíra, endereçada ao meu pai, Chico falou-lhe:
— Lando, as mensagens de Batuíra para você já davam um livro...
Não dá para esquecer o entusiasmo do querido pai e a alegria que não conseguia esconder, ante o lançamento pelo GEEM de um livro do Chico.
Repetia-nos a cada instante:
— O GEEM vai editar um livro do Chico e do Batuíra!
No ano seguinte, surgiu Mais Luz, inaugurando nosso departamento editorial, hoje com 90 livros psicografados pelo Chico e ainda mais alguns futuros lançamentos.
Dispensava Rolando ao querido médium de Emmanuel imenso carinho e atenção, e, nas suas excogitações, despontava a certeza de tê-lo conhecido em passado distante, quando dura realidade o levou a dever-lhe eterna gratidão.
Em cada encontro, presenteava-o com mimos curiosos, tudo o que fosse novidade, qual o mimeógrafo do final da década de 1950, que imprimia em duas cores. Ao entregar-lhe o ‘raro e valioso equipamento’, demonstrou à exaustão o seu uso, como se tratasse da mais moderna impressora multicolorida de nossos dias.
Em suas visitas ao Chico, era obrigatória a companhia dos amigos participantes do GEEM. Quando não podiam ir, mesmo por motivos incontornáveis, recebiam severa advertência:
— Precisamos aprender com ele. É o missionário do Bem que Jesus nos enviou!
Nos anos 70s, época da maior evidência de Chico na televisão e na imprensa de modo geral e das saudosas Tardes/Noites de autógrafos, em que o último livro era autografado já com o nascer do Sol, Rolando estava sempre a seu lado. Acompanhava-o também nas cidades do país que lhe concederam mais de uma centena de títulos de cidadania.
Nas reuniões públicas de Uberaba, era sempre o primeiro a chegar e o último a despedir-se da doce criatura que a tudo renunciou para servir ao Divino Nazareno.Tinham de ser seus o primeiro e o derradeiro abraço ao Chico!
Rolando lançou e editou regularmente, a partirde 1967, a revista Comunicação, como precípuo objetivo de divulgar a obra de Chico Xavier, não obstante o periódico já existisse informalmente havia 10 anos, editando as mensagens que o médium de Deus lhe enviava.
Após o seu lançamento, Rolando buscou divulgá-la por todos os quadrantes do país. Assim, em suas viagens a Uberaba e nas tardes de autógrafos do Chico, colhia endereços de todos os que se interessassem em receber o exemplar da edição,que era mensal.
Pedia-me ajuda nesse mister, e os seus bolsos do paletó e da calça (e os meus também) ficavam cheios de pedaços de papel com os nomes e endereços que chegaram, no correr do tempo, a 140 mil!
Hoje, a revista Comunicação, em papel couchê e sempre abordando temas ligados a Chico, alcança 25.000 exemplares e, gratuitamente, percorre o país e chega ao exterior.
Nosso primeiro livro, Mais Luz, de Batuíra, deixou Rolando inebriado. Impossível esquecer sua insistência em procurar Laerte Agnelli, o celebrado publicitário, renomado autor de quadros belíssimos, reconhecidos em exitosas exposições na Itália.
Desejava que ele fizesse a arte da capa.
Em seu livro, Encontros com Chico Xavier, editado pelo GEEM, Laerte descreve de modo singular a visita que meu pai lhe fez.
Mais Luz inspirou novo e agradável visual ao livro espírita, com sua capa muito expressiva e o papel off-set, mais claro que o então habitualmente utilizado.
Encantou-nos a todos do grupo o entusiasmo de Rolando ao levar o lançamento a Chico, o que fez aliás com todos os outros livros que editou até deixar-nos. Para ambos cada livro era um filho do coração.
Arrostando obstáculos, o GEEM caminha, desde sua fundação, caro leitor, com suas inúmeras atividades:
— Divulgação Braille Casimiro Cunha, o nosso grupo Casimiro Cunha, que Rolando fundou em 1972, ao lado de Frederico Alves e Vânia Jorge Alves, com a finalidade de levar aos deficientes visuais a codificação kardequiana, exaustivamente exemplificada por Chico Xavier.
— Centro Espírita Maria João de Deus, em São Bernardo do Campo.
— Nosso site, o Facebook e o programa ‘No Limiar do Amanhã’, levado ao ar pelas rádios Mulher de São Paulo e Morada do Sol de Araraquara desde o início dos anos 70s.
O cinquentenário do GEEM muito nos orgulha e enaltece.
Fizemos de tudo para cumprir os compromissos assumidos na Espiritualidade com Isabel de Aragão — a santa que cultivava rosas vermelhas em seu paço de Coimbra — Emmanuel, Batuíra e também com Chico Xavier.
Rolando dirigiu o GEEM no plano físico até sua desencarnação e o dirige do plano espiritual. Nós, os colaboradores que ainda estamos por aqui, na Terra, persistimos nas duras lides do dia a dia. Procuramos evidenciar ao movimento espírita de nosso país que Chico continua entre nós. Ele, o grande apóstolo, que nos acompanhou ao longo de todo o século passado e nos princípios deste milênio.
Não podemos esquecê-lo, pois tanto devemos a essa criatura, que o Mestre colocou em nossos caminhos.
Ao suceder a Rolando na direção do GEEM, sobretudo de início, eu levava a Chico Xavier todos os problemas que me surgiam à frente, e ele pacientemente me dava os esclarecimentos necessários.
Muitas vezes, antecipava-se aos meus rogos com seus dons divinatórios.
Foi o que aconteceu, certa feita, em uma manhã de sábado. Que pena não poder reviver o ocorrido, senão nas recordações que se esbatem nas paredes pétreas do tempo...
Sentado à mesma mesa de trabalho que meu pai utilizara por longos anos, eu pensava sobre circunstancial dificuldade que surgira e que me tirara o sono durante toda a semana. Não sabia como resolvê-la.
Eis que,lá pelas dez da manhã, toca o telefone, e aquela voz inconfundível, suave, doce, amorosa, me fala:
— Meu caro amigo, está tudo bem, as coisas se aquietarão.
E continuou a falar-me por muito tempo.
Às despedidas, pediu-me que fosse até a escada exterior do prédio, que ele bem conhecia, próxima à sala onde eu estava, e contemplasse o quintal de nossa instituição, rogando que eu lá permanecesse por alguns minutos.
Deixei a sala, abri a porta, fui à escada e contemplei o pequeno bosque de árvores variadas, tendo ao centro uma paineira gigante, de que caíam tufos brancos de paina, rodeada por sibipirunas, tipuanas e araucárias.
Místicas casuarinas, pouco mais distantes, formavam imponente cerca-viva, próxima ao muro alto, que ainda hoje delimita a entrada do GEEM.
Pássaros bailavam entre as árvores, e a proximidade da Serra do Mar ensejava a presença também de barulhentos papagaios, com seu voo desgracioso e o canto pouco inspirado.
Enquanto contemplava o balanço das casuarinas chorando ao vento, fui envolvido por uma lufada de suave aragem.
Perdi a hora imerso naquela ambiência de luz, com a sensação de ter-me desligado do implemento físico.
O ‘grande problema’, que me deixava apreensivo, por milagre fora resolvido. Retornei à sala com sua solução, tão simples...
Cinquentenário do GEEM! Continuaremos batalhando em torno de nossos claros objetivos, rogando a Jesus que jamais decepcionemos Chico e Rolando.
Aos nossos caros amigos, leitores da revista Comunicação, ouvintes de ‘O Limiar do Amanhã’, internautas que acessam nosso
Permaneçamos juntos no longo percurso, inspirados pelos nossos queridos benfeitores, divulgando nossa doutrina e buscando socorrer cada irmão da lide terrena, caído na estrada da vida, como o fez o samaritano que descia do Monte de Sião, por áridas veredas, a caminho de Jericó.
Caio Ramacciotti.
GEEM - Grupo Espírita Emmanuel - São Bernardo do Campo-SP, janeiro de 2017