Benjamin



"Quando Jesus, nas suas pregações, caminhava pela Galiléia, era sempre acompanhado por muitas mulheres que levavam seus pequenos rebentos. Estas crianças, em grande balbúrdia, aprendiam um pouco dos ensinamentos, levavam, muitas vezes, reprimendas, mas permaneciam seguindo o Mestre.

Entre eles, havia um pequeno chamado Benjamin, olhos buliçosos, cabelos anelados e negros, pés imundos, roupa empoeirada. E Benjamin, em todas as pregações do Mestre, estava presente. Ele não ia com sua mãe, não ia acompanhando seu pai, ia com a molecada.

Algo o fascinava naquele homem, além de diverti-lo muito o aglomerado de criaturas.

Certa tarde inolvidável, Benjamin, assentado no monte, ouvia o Mestre falar sobre os pássaros que voavam sobre os lírios que nasciam nos campos, sobre o sofrimento que devia ser suportado, sobre os humildes, que teriam um Reino diferente e encantado.

Aquilo penetrou fundo na alma de Benjamin e ele pensou consigo:

– Se a minha casa existe tanta miséria, tanta infelicidade, tanta fome, certamente este homem pode oferecer-me coisas deliciosas...

E nem bem assim pensou, eis que Jesus chamou aquele que Benjamin considerava o mais rabugento, Simão Pedro, que vivia fustigando com varas suas pernas magras, que vivia a espantá-lo para longe daquele homem fascinante que o atraía tanto, e entregaram ao Mestre alguns pães e alguns peixes, já endurecidos. E, milagre dos milagres! Benjamin viu, com a boca salivando, peixes se multiplicarem até lhe fartar o apetite voraz, pães saborosíssimos, a lhe matar a fome sempre ávida!

E ele acreditou que aquele homem era realmente um grande mágico, um mágico poderoso, porque o pai trabalhava de sol a sol e não era capaz de transformar os pães endurecidos do lar daquela maneira e os peixes eram sempre tão poucos... Mas aquele homem... aquele homem, sim, era alguém raro e poderoso!

E Benjamin fez daquele homem o seu ídolo. À noite, ainda sentia na boca a gosto daquele pão que lhe saciara a fome.

Certo domingo, ele despertou de maneira muito mais vivaz.

Estava aproximando-se o tempo das grandes festas, quando eram oferecidos presentes aos pobres, alimentos, sobras dos banquetes. E ele, como todos os outros meninos inquietos e felizes, buscou por todos os lugares, onde estava o Nazareno. E não só ele esperava, mas muitas outras pessoas, que diziam:

– Espere, que ele já vai passar.

E eis que o Mestre chegou, montado num jumentinho quase da metade do seu porte! O Nazareno, aclamado, amado, respeitado, tão esperado! Todos se aglomeravam nas praças e ele se sentiu orgulhoso, feliz, por ver o Mestre. O homem que ele mais admirava era admirado por todos! O homem que era muito mais poderoso que o seu pai era aclamado como Rei!

Poucas horas se passaram, entretanto a lua desceu sobre a Terra e seus raios não foram capazes de iluminar a grande noite de dor. Benjamin, com seus olhos marejados de pranto, viu seu Mestre ser esbofeteado e castigado em praça pública!

Por que faziam assim com o Nazareno, tão bondoso? Será que tinham medo? Medo de ele arrebatar o reino? Será que os romanos temiam que ele ocupasse o trono de ouro? (que ele, Benjamin achava justo fosse ocupado pelo Nazareno, porque ninguém fazia tantos milagres quanto ele...) Por que tanta agressão a um homem tão bom?

E Benjamin ainda viu culminar a sua dor com a crucificação de Jesus. Ouviu falar de seu túmulo vazio e pensou consigo: “Foram buscar o seu corpo e o seu corpo sumiu, porque ele era realmente um grande mágico. Nem seu corpo conseguiram encontrar no túmulo vazio...”

Passaram-se oito anos, Benjamin nunca esqueceu o Mágico dos Pães. Onde quer que fosse, tudo lhe lembrava aquele grande homem.

Certo domingo, para divertir as grandes damas, cujos colares, adereços e túnicas faziam inveja, sob os reflexos do sol, Benjamin, como tantos outros foram assistir, no circo, ao grande sacrifício dos cristãos. Ele ouvira, sim, um movimento que falava sobre o Nazareno, mas ele pensava consigo: “O Nazareno morreu... de que adianta seguir os seus discípulos? Simão Pedro, tão rabugento; João, tão indiferente; Tiago, tão carrancudo; isto sem falar em Bartolomeu, trôpego e cansado”.

Não, nenhum daqueles discípulos era capaz de atrair a atenção de Benjamin... Uma vez, alguém o impressionara muito, porque chorava convulsivamente a cada pregação do Mestre: era uma mulher de longos cabelos e que usava um manto a cobrir-lhe quase todo o rosto... E diziam que aquela mulher que chorava tanto, chorava pelos seus muitos pecados. E ele não podia entender porque, naquela tarde, tantos eram capazes de se sacrificar por um Nazareno que já havia partido, já havia morrido...

E eis que chegara, ao grande circo, muitos e muitos cristãos. Jovens despontando para a vida, velhos de olhos cheios de esperança, mães que abandonaram os filhos no lar, nos braços dos esposos, para abraçar a cruz do sacrifício... E Benjamin foi sentindo crescer dentro dele a revolta: mataram o Cristo e agora vão matar aqueles que o amam? Por quê? Não podia entender...

De repente, as feras soltas se erguem em direção do espaço. E um canto se ergue entre os que vão morrer. Vão buscar Jesus as notas melódicas de um canto de paz, de renúncia, de sacrifício. Gritavam hosanas ao Mestre, dizem que Ele não morreu, porque vive em cada um de seus seguidores. E a imagem de Jesus vai-se delineando pouco a pouco, pairando no espaço, de olhos voltados para baixo, olhando para aqueles que iriam sofrer o sacrifício de serem degolados pelas feras soltas.

E Benjamin, vendo com seus olhos espirituais aquela imagem esfumada pairando no ar, grita a plenos pulmões:

– Eu vejo o Cristo! Eu sou Cristão! Eu vejo o Cristo, que paira sobre todos os que são sacrificados! Eu creio nele!

Naquele instante, a multidão viu naquele jovem mais um prato para seu prazer insaciável de sangue. Agarraram-no e atiraram-no às feras. Mas valeu o sacrifício...

-o-

Por mais que soframos, se a nossa fé permanece inalterada, todo sacrifício é válido. Por mais que amemos e nos sacrifiquemos, por muito pouco que sejamos entendidos, por muito pouco que possamos entender, às vezes nos caminhos tortuosos da vida vale a pena viver, porque Jesus deu um sentido diferente às nossas vidas, à nossa fé. Nossa fé já não é a fé de um túmulo vazio: Jesus nos fez ressurgir, também, dentre os mortos, da vida acomodada e inútil, para uma arena que temos que enfrentar cada dia, demonstrando que cremos nele, que nossa fé é forte e que ele vive dentro de nós...".

Franz Stein – espírito

Mensagem recebida pela médium Shyrlene Soares Campos.


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