CONSUMAÇÃO
(Rute Miranda Sirilo)
Há tanta vida a palpitar lá fora
e eu sozinha, deitada num caixão.
Ouço tudo, sinto e nada vejo.
Aos poucos minha vista escureceu
E mãos estranhas das pálpebras cerraram,
de mim velando, do Sol a claridade.
De que me valem as luzes da manhã
se sei que já não brilham para mim?
Ao meu lado um casal de namorados
esconde o riso em face compungida.
De que vale o amor que envolve os ares,
se o corpo imoto clama por descanso?
Distingo ao longo a voz de uma vizinha,
feliz, cascateante e prazerosa.
De que valem as delícias transitórias,
se a treva amortalhou o meu caminho?
E sofro, pois em mim tudo é silêncio
e a alma segue passo imaterial
Prossegue a busca do horizonte além,
onde haja paz, tranquilidade, sonho.
Gélido o corpo, o coração soluça.
Se já não posso o pranto derramar,
Aceito o FIM. Rasgo o véu do INFINITO.
e entrego-me, serena, às mãos de DEUS!
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