A paralítica

De Chico Xavier:

Horas antes de nossa reunião pública, com quatro irmãos que se achavam em nossa companhia, fomos a cidade vizinha visitar uma criança doente. Não longe da casa em que reside a pequenina enferma, encontramos uma senhora paralítica, em recanto quase isolado de extensa zona rural que nos solicitou orarmos com ela por alguns momentos.

Muito simpática e sofredora, vivendo da caridade pública e sem qualquer parente, a situação dela realmente nos comoveu muito.

Voltamos para a nossa reunião. E, depois de nossa habitual visita a alguns lugares de irmãos nossos, passamos ao desenvolvimento das tarefas da noite.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo nos é oferecido a exame a formosa página intitulada Uma realeza terrestre, no capítulo II, assinada por uma entidade espiritual que se reportava às lutas que encontrara na posição altamente destacada que usufruiu na Terra.

A comunicação foi carinhosamente estudada por uma de nossas irmãs presentes. E, no encerramento da reunião, o poeta Epifânio Leite nos trouxe o soneto com dedicatória expressiva. Ele mesmo, poeta desencarnado, informou-nos por audição, referir-se à paralítica em penúria material que havíamos visitado horas antes.

NOTA: Epifânio Leite Albuquerque nasceu e morreu em Fortaleza, Ceará (1891-1942). Autor do livro de poesias “Escada de Jacó”, membro da Academia Cearense de Letras, foi juiz de Direito em Baturité, no mesmo Estado. Sua poética se caracteriza pelo rigor formal e a delicadeza de sentimentos.
(Versos dedicados à venerável irmã que conhecemos na realeza terrestre, há quatro séculos. Culta, não espalhou os benefícios da inteligência. Amiga incondicional dos amigos e inimiga implacável dos adversários. Generosa para com os áulicos abastados e indiferentes às vítimas da penúria. Embora destacasse as vantagens da paz, incentivou, quando pode, as guerras de conquista e ambição. Agradecida aos vassalos obedientes, perseguia, até à morte, quantos não lhe observassem as diretrizes. Amada e odiada, alcançou o Mais Além, e, à frente da verdade, preocupou-se com a redenção própria.

Regressou à Terra, várias vezes, apagando-se devagar, quanto ao brilho terreno que ostentava, até que rogou a prova final, em que a identificamos presentemente, habilitando-se no corpo enfermo e disforme, em acentuada penúria, para a ascensão próxima à Espiritualidade Superior.

A essa irmã admirável e valorosa, capaz de omitir-se e sofrer até a integral reparação da própria grandeza em si mesma, oferecemos aqui a nossa pálida homenagem, desejando-lhe plena vitória em Jesus e com Jesus).

REFAZIMENTO

(Epifânio Leite Albuquerque)

Vejo-te, soberana, aos paineis da memória!
O trono te emoldura a face de outras era...
Oprimes sem temor, espancas onde imperas,
Fulges no fausto vão de vaidade ilusória!...

A paixão de esfogueia a fome de vanglória,
Exilas e destróis, humilhas e encarceras...
Vem a morte, no entanto, entre forças austeras,
E largas sob a cinza a pompa transitória!

Foi-se o tempo... Hoje achei-te em catre duro e estreito,
Paralítica e só, parafusada ao leito!...
Chorei ao ver-te a choça e o triste quarto em ruínas!

Mas louvo o fel de agora ante o sol do futuro...
Pela dor subirás ao reino do amor puro
Em teu carro estelar de açucenas divinas!
Do livro Astronautas do Além, com Chico Xavier/Ed. GEEM.

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