"Versos à irmã aleijada e mendiga, que encontrei hoje, na via pública".
Dama nobre que amei, desprezado e proscrito(1),
Ao recordar-te, fiel, por legendárias(2) landas(3),
Liberto, em vão, busquei a terra onde hoje mandas,
Cavaleiro do sonho, a galope no Egito...
Achei-te reencarnada, em áspero conflito,
Mutilada mulher, já não falas, nem andas,
E alguém te exibe ao povo as chagas por guirlandas(4),
Na caça de sustento ao corpo gasto e aflito.
Ao ver-te exposta à rua, aos empuxões(5) e aos trancos,
Lembro-te o sólido de ouro e os belos coches(6) brancos,
Tremo, transido(6) e triste, a seguir-te de rastros!...
Louva, Senhora, a lei!... Sofre a pena e a clausura...
Um dia, livre enfim, santificada e pura,
Terás, de novo, um reino e um trono, além dos astros.
NOTA DE LIMIAR ESPÍRITA
Vocabulário
(1) - Proscrito: Desterrado, afastado, banido.
(2) - Legendárias: Relativo ou referente a lendas, cuja tradição ou narração é maravilhosa.
(3) - Landas: Descampado onde apenas crescem ervas daninhas.
(4) - Guirlandas: Grinalda, enfeite.
(5) - Empuxões: Ato de empuxar, puxar com violência.
(6) - Coches: Carruagem antiga e elegante.
(7) - Transido: Impregnado ou repassado, seja de dor, de frio, de vergonha, etc...
Soneto recebido pelo médio Chico Xavier em reunião pública da Comunhão Espírita Cristã, na noite de 23-5-1964, em Uberaba-MG - Anuário Espírita de 1965-IDE.