MENSAGEM DE COMPANHEIRO

(Jésus Gonçalves)

Jésus Gonçalves assim inicia: “A ti, meu irmão, que assumiste comigo os pesados encargos da existência num sanatório de hansenianos, sem possibilidades de cura física; a ti, para quem a ciência da Terra não conseguiu trazer, tanto quanto a mim, o medicamento salvador; a ti, que não tiveste, qual me ocorreu, a consolação dos egressos; a ti, que sofres entre a ter viva e a dúvida inquietante, entre a tentação, a revolta e a aceitação da prova, acreditando-te frequentemente esquecido pelas forças do céu, ofereço a lembrança fraternal destes versos.

Não te admitas réu de afrontosa sentença,
Largado de hora em hora à sombra em que esmagas,
Varando tanta vez humilhações e pragas
À feição de calhaus da humana indiferença.

Crueldade, paixão, injúria, crime, ofensa
Criaram-nos, um dia, a estamenha de chagas!...
No pretérito abriste o espinheiro em que vagas
E, embora a provação, trabalha, serve e pensa.

Ânsia, tribulação, abandono, amargura,
São recursos da lei com que a lei nos depura
O coração trancado em nódoas escondidas...

Bendize, amado irmão, as feridas que levas,
A dor extingue o mal e o pranto lava as trevas
Que trazemos em nós dos erros de outras vidas.


Do livro Na era do espírito, com Chico Xavier/Ed. GEEM.

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