O HOMEM E O TEMPO

(Antero de Quental)

               
I
Disse o Homem ao Tempo: – Ó gênio triste! Onde a tua caverna horrenda e escura? Por que trazes velhice e desventura À minha carne que te não resiste? Abomino-te a clava estranha e dura Que dilacera tudo quanto existe!... Por que razão me segues, lança em riste, Estendendo-me as noites de amargura? Por que fazes o riso envolto em pranto E derramas o fel do desencanto No doce vinho da felicidade? Quem és tu? Monstro ou deus, arcanjo ou fera? Onde o ninho de sombra que te espera Nos remotos confins da Eternidade?!
II
Mas o Tempo exclamou:– Ergue-te e lida!... Sou pajem divino que te exorta A seguir para os Céus, de porta em porta, Amparando-te os passos na subida... Eras apenas larva indefinida Quando arranquei-te à treva fria e morta. Desde então, sou a luz que te transporta, De forma em forma, para a Grande Vida. Dou-te alegria e dor, miséria e glória, Para que guardes, puro, na memória, O amor de Deus que, em tudo, anda disperso... Louva o trabalho que te imponho aos dias. Sem meus braços, irmão, não passarias De um verme preso às furnas do Universo.

Obs: Antero de Quental (1842-1891), notável poeta português desencarnado em Portugal.

Do livro Vozes do Grande Além, de Espíritos diversos, com Chico Xavier/Ed.FEB.


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